“A continuidade do ciclo de redução da Selic, na reunião do Copom desta terça e quarta-feira (16/06 e 17/06), é necessária para estimular a economia brasileira em um cenário marcado por incertezas globais, tensões geopolíticas e os efeitos de um ano eleitoral”, afirma Rafael Cervone, presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Para ele, a queda dos juros é fundamental, mesmo diante da alta das projeções inflacionárias para 2026 apontada pelo Boletim Focus desta semana, divulgado segunda-feira (15/06).
Lembrando que o relatório mostrou elevação da estimativa do IPCA para 2026, de 5,11% para 5,30%, na 14ª revisão consecutiva para cima, Cervone pondera que não se pode ter o endurecimento da política monetária como único instrumento de controle da inflação.
Cabe entender que juros elevados aumentam drasticamente o custo da dívida pública, agravam o desequilíbrio fiscal e acabam retornando à economia como mais um fator de pressão sobre os preços. Como está, a Selic sufoca a todos", frisa Cervone.
A Selic, atualmente em 14,5% ao ano, permanece entre as taxas básicas mais elevadas do mundo, mesmo após os últimos cortes realizados.
Para o setor produtivo, a manutenção de juros tão altos já não encontra justificativa na realidade da economia brasileira, que apresenta sinais de desaceleração e demanda enfraquecida. No primeiro trimestre deste ano, a indústria de transformação, cujo fator de multiplicação na economia é o maior dentre todos os setores, cresceu apenas 0,1%. É um sinal de alerta”, avalia o presidente do Ciesp.
Na opinião de Cervone, a política monetária tem sido excessivamente conservadora.
O combate à inflação é crucial, mas não pode ignorar seus impactos sobre a economia real. Quando o crédito fica caro demais, quem paga a conta são as empresas, os trabalhadores e os consumidores. O nível de endividamento da sociedade é muito alto, pesquisas mostram que está acontecendo uma arriscada corrida às apostas (bets) em busca de recursos”.
Os reflexos da Selic exagerada espalham-se por todas as atividades econômicas. Projetos de expansão são adiados, investimentos produtivos perdem atratividade e o crédito deixa de cumprir sua função de impulsionar o crescimento. “Em um ambiente em que aplicações financeiras oferecem retornos elevados com baixo risco, empreender, inovar ou ampliar a produção é cada vez mais difícil”, frisa Cervone.
Para ele, não existe crescimento sustentável com juros estratosféricos.
A reindustrialização, uma prioridade, fica mais difícil, restringe-se o avanço da produtividade e da competitividade nacional. O Brasil precisa voltar a premiar quem produz e não apenas quem aplica recursos no mercado financeiro”.
O presidente do Ciesp também salienta que a redução da Selic, embora necessária, não é suficiente. Segundo ele, o País precisa avançar simultaneamente em uma agenda consistente de equilíbrio das contas públicas, baseada na racionalização dos gastos e no aumento da eficiência do Estado. A convergência entre política fiscal e monetária é uma condição indispensável para a construção de um ambiente econômico mais previsível e favorável ao investimento.
O ajuste fiscal e a queda dos juros não são agendas concorrentes, mas sim complementares. Quanto maior a confiança no equilíbrio das contas públicas, maior será o espaço para uma trajetória consistente de redução da taxa básica”, afirma o presidente do Ciesp, ponderando que a discussão sobre juros já ultrapassa a esfera técnica da política monetária. “A rigor, trata-se de um tema muito relacionado à capacidade de crescimento do Brasil. O aumento da inadimplência, a expansão dos pedidos de recuperação judicial e a retração dos investimentos sinalizam que famílias e empresas enfrentam dificuldades crescentes para consumir, produzir e gerar empregos”.
Segundo Cervone, os juros altos representam um obstáculo cada vez maior ao crescimento sustentado em patamares mais robustos.
“O Brasil precisa gerar oportunidades, fortalecer sua indústria e promover expansão anual mais expressiva do PIB. Para isso, a continuidade do ciclo de redução da Selic é uma prioridade”, afirma.