Rafael Cervone, presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), manifestou preocupação com a queda de 0,2% da indústria de transformação apontada pelo IBGE, ao divulgar, nesta terça-feira (03/03), os dados do PIB brasileiro em 2025, que cresceu 2,3%, pior resultado em cinco anos. “Essa desaceleração também é um agudo sinal de alerta”, afirmou o empresário.
Cervone estabeleceu uma relação de causa-efeito entre o retrocesso da indústria de transformação e o desempenho geral da economia brasileira.
A despeito da importância do agro, que teve expansão de 11,7%, e dos demais segmentos, não é possível manter um aumento sustentado expressivo do PIB sem o crescimento contínuo e substantivo da manufatura. O setor é gerador intensivo de empregos, agrega muito valor à pauta de exportações, paga salários mais elevados, gera tecnologia e inovação e tem, dentre todas as atividades, o maior fator de multiplicação em todas as cadeias produtivas, inclusive no âmbito da indústria em geral, cujo avanço, aliás, foi bastante tímido, com 1,4%”, disse Cervone.
Para o presidente do Ciesp, o recuo da indústria de transformação é um alerta que merece muita atenção por parte das autoridades econômicas, tanto dos responsáveis pela política fiscal, quanto os que cuidam da monetária.
O retrocesso reflete as altas taxas de juros, que afetam o crédito de pessoas físicas e jurídicas, o desequilíbrio das contas públicas, que pressiona a inflação e mina a confiança dos agentes econômicos e o poder de compra das famílias. Se as fábricas produziram menos bens de consumo é porque as pessoas estão comprando menos."
O presidente do Ciesp também fez uma reflexão no sentido de que a queda do setor indica que os efeitos dos corretos programas Nova Indústria Brasil (NIB) e Depreciação Acelerada, que visam à modernização, aporte tecnológico e fomento da atividade, não estão sendo tão eficazes quanto se esperava.
São boas políticas públicas, mas seus resultados acabam sendo atropelados pela persistência de problemas como os juros reais exagerados, os impostos muito altos e a insistência do Estado em socorrer o déficit público taxando cada vez mais os setores produtivos”, ponderou.
Cervone lembrou que medidas aprovadas no fim de 2025 agravaram a taxação do setor. Dentre as iniciativas mais nocivas está a Lei Complementar nº 128/2025, que inaugurou um equívoco conceitual ao tratar o lucro presumido como benefício fiscal. Na prática, a lei promove uma elevação direta da tributação nesse regime, ao aumentar o percentual de presunção para empresas com receita anual acima de R$ 5 milhões.
Quase metade do ônus adicional criado por essa lei recai sobre a indústria. Trata-se de uma alternativa inaceitável, sobretudo diante do papel estratégico do setor na economia brasileira”, salientou.
A situação agravou-se com o aumento da tributação dos Juros sobre Capital Próprio (JCP), cuja alíquota passou a 17,5%. Segundo levantamento da CNI, essa mudança elevará em cerca de R$ 1 bilhão a carga tributária do setor, reduzindo diretamente sua capacidade de investir.
Também preocupante foi a entrada em vigor da Lei nº 15.270/2025, que aumentou impostos, ao taxar lucros e dividendos. O mais grave é que, conforme confirmado pela Receita Federal, estabeleceu-se tributação de 10% sobre a base de cálculo do Simples Nacional. É um golpe duro contra os pequenos empreendedores, inclusive da indústria”, frisou o presidente do Ciesp.
“O baixo crescimento do PIB e a queda da indústria de transformação evidenciam com ênfase a necessidade urgente de redução do ‘Custo Brasil’, o equacionamento da política fiscal e sua equalização com juros menores e a revisão de medidas que aumentam a taxação, atropelando a reforma tributária sobre o consumo, cuja lenta transição começou este ano. Em 2026, sob pena de observarmos um desempenho ainda pior da economia, precisamos solucionar com urgência os gargalos que reprimem o crescimento sustentado do PIB e penalizam quem produz e trabalha”, concluiu Rafael Cervone.