A primeira quinzena de outubro, quando comemoramos o Dia da Criança (12/10) e o Dia do Professor (15/10), convida-nos a uma importante reflexão: para proporcionarmos um futuro melhor às novas gerações é prioritário melhorar a qualidade da Educação Básica gratuita, responsável pela escolaridade de 80% dos alunos brasileiros. Da etapa infantil ao Ensino Médio, passando pelo Fundamental, a cada cinco matrículas, cerca de quatro concentram-se em instituições públicas, segundo o Censo Escolar mais recente.
Lamentavelmente, estamos atrasados nessa agenda, também contemplada pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), como demonstram os resultados de 2025 do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), recém-divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Dentre os 89 países participantes da avaliação, que abrange alunos na faixa de 15 anos, o Brasil ficou em 71º lugar em Matemática, 52º em Leitura e 67º em Ciências. Nossas médias ficaram abaixo das registradas pela OCDE nas três áreas avaliadas.
Mais crítico do que a posição no ranking, porém, é o que os números representam dentro da sala de aula. No Brasil, apenas 28% dos estudantes alcançaram o nível mínimo de proficiência em matemática, diante de 65% na média da OCDE. Em leitura, 49%, contra 69% e em Ciências, 48% ante 74%.
Cabe lembrar que por trás de cada percentual existem muitas crianças e adolescentes com dificuldades para compreender um texto, interpretar um gráfico, resolver um problema ou explicar um fenômeno científico. É nesse aspecto que o Dia do Professor ganha especial significado, pois é grande o empenho dos mestres na tentativa de atender bem a infância e a adolescência, carregando não apenas livros e planos de aula, mas também as limitações de uma estrutura educacional que ainda precisa avançar muito.
Assim, é preciso tratar a situação do magistério com mais seriedade. Não há política educacional capaz de produzir bons resultados se não houver docentes bem-formados, respeitados, valorizados e continuamente preparados para enfrentar os desafios de uma sociedade em transformação e de uma economia que exige recursos humanos cada vez mais bem-instruídos e capacitados. No entanto, a carreira não tem sido estimulada. A pesquisa “Apagão dos Professores”, do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), mostra que o número de profissionais de até 24 anos no Ensino Médio caiu 31,1% entre 2015 e 2025.
É preocupante, pois a tecnologia amplia o acesso ao conhecimento, a inteligência artificial cria ferramentas e os equipamentos podem modernizar as escolas. Nada disso, entretanto, substitui a presença de quem sabe ensinar, ouvir, estimular, corrigir, acolher e despertar no aluno a ânsia de aprender.
Valorizar os professores não significa apenas discutir remuneração, embora ela seja parte essencial do reconhecimento profissional. Também é necessário aprimorar sua capacitação inicial, oferecer formação continuada de qualidade, criar condições adequadas de trabalho e conferir à carreira docente todo o prestígio que ela merece.
O Brasil sempre soube que educação é prioridade. Está escrito na Constituição e ostentado como trunfo de marketing nos discursos das campanhas eleitorais. O desafio é transformar a Lei Maior e as promessas em ações efetivas do Estado. Precisamos de uma política de ensino capaz de atravessar governos, com planejamento e a devida abordagem como uma das mais importantes estratégias nacionais de desenvolvimento. E isso depende de outro e crucial evento do calendário de outubro: as eleições, que possibilitam aos brasileiros determinarem o curso de sua própria História.
Não há nação competitiva, produtiva e socialmente justa sem educação pública de qualidade, e a excelência é viável, como se observa no Sesi e no Senai, mantidos pela indústria. Se o Brasil vencer esse gargalo, o futuro de progresso mais expressivo ficará mais próximo e viável.
Esse desejado amanhã encontra-se na pergunta de uma criança, na descoberta de um adolescente, na primeira palavra lida e na equação finalmente compreendida. Será escrito, em grande medida, pelo que formos capazes de fazer hoje nas salas de aula. E, apesar da inesgotável fé dos brasileiros, esse avanço não depende de um novo milagre de Nossa Senhora Aparecida, cuja celebração também ocorre em outubro, no dia 12. A redenção do ensino somente será viável por meio de uma decisão política, patriótica e responsável do poder público e daqueles que a população eleger para representá-la no Executivo e no Legislativo.
*Rafael Cervone é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).