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A indústria é o núcleo de um ecossistema sofisticado, que conecta universidades, centros de pesquisa, startups, serviços tecnológicos, comércio, agronegócio e infraestrutura.

Em recente palestra que ministrei na primeira edição da São Paulo Innovation Week, uma das maiores feiras de tecnologia da América Latina, que reuniu 90 mil visitantes, tive a oportunidade de compartilhar uma reflexão que considero essencial para que o Brasil ingresse num ciclo robusto e duradouro de desenvolvimento: a indústria contemporânea, a despeito de seu papel relevante na economia, não atua de maneira isolada. Ela é o núcleo de um ecossistema sofisticado, que conecta universidades, centros de pesquisa, startups, serviços tecnológicos, comércio, agronegócio e infraestrutura.

O crescimento sustentado do PIB depende justamente dessa integração estratégica entre os pilares produtivos. Ou seja, a pujança econômica é construída pela colaboração inteligente entre as distintas atividades e por políticas de Estado que contribuam para o seu fomento. No Brasil, porém, como tenho observado em distintos fóruns e artigos, a indústria foi negligenciada nas últimas quatro décadas, num grande equívoco histórico.

Demonstrei em minha palestra que é na indústria que reside a maior capacidade de multiplicação de riqueza, empregos, renda, inovação e desenvolvimento social. A cada R$ 1 faturado pelo setor, são gerados R$ 2,60 adicionais nos demais segmentos da economia. Nenhuma outra atividade apresenta tamanho efeito multiplicador.

Esse dado, por si só, desmonta uma visão equivocada e com frequência difundida de que a indústria teria perdido protagonismo. Ao contrário. Em um mundo cada vez mais tecnológico, competitivo e dependente de produtividade, o setor tornou-se muito estratégico. Afinal, são as fábricas que impulsionam cadeias inteiras de serviços, alimentam e movimentam o comércio, agregam tecnologia e equipamentos ao agronegócio, estimulam a logística, fomentam a pesquisa científica e promovem inovação em larga escala.

Não por acaso, a indústria responde por 69% dos investimentos em inovação realizados no Brasil e 67% dos gastos nacionais em pesquisa e desenvolvimento. Quando se fala em inteligência artificial, digitalização, automação e transição energética, o principal foco está nas competências industriais. Nenhum país alcançou elevado grau de prosperidade renunciando a sua base manufatureira. Os exemplos internacionais são abundantes e eloquentes.

São Paulo é a maior prova dessa realidade. Não podemos esquecer que construiu sua grandeza econômica a partir da força da indústria, que foi decisiva para que se tornasse o maior polo produtivo, tecnológico e empresarial da América Latina. O PIB paulista, o maior do País, alcança R$ 3,44 trilhões, concentrando 31% de toda a riqueza gerada no Brasil, segundo a Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados). Se o Estado fosse uma nação independente, teria uma economia maior do que a da Argentina.

Essa posição foi resultado de décadas de investimento produtivo, empreendedorismo, infraestrutura, educação técnica, capacidade industrial e integração econômica entre os distintos setores. A própria capital paulista, com um PIB próximo de R$ 1,06 trilhão, representa sozinha cerca de um terço da riqueza estadual. E é emblemático que 35 dos 100 maiores municípios brasileiros em geração de riqueza estejam localizados em São Paulo. Nada disso seria possível sem a presença decisiva da indústria como eixo estruturador do desenvolvimento.

O Brasil precisa compreender, e com urgência, que países desenvolvidos protegem e fortalecem suas indústrias porque sabem que elas representam forte capacidade de inovar, gerar empregos qualificados e disputar espaço nas cadeias globais de valor. Por isso, a centralidade do setor como fator de dinamização da economia precisa ser reconhecida e contemplada em políticas públicas de Estado de longo prazo. Não queremos benesses, queremos respeito dentro dos legítimos interesses de todos.


*Rafael Cervone, engenheiro, é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp)