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Não se trata de afirmar que autonomia financeira elimina a violência. Seria simplificar um problema complexo. Entretanto, a independência proporciona algo indispensável: liberdade de escolha, que pode significar a diferença entre permanecer em uma situação de risco ou encontrar forças para sair dela.

Há números que nos obrigam a refletir. Outros nos constrangem como sociedade. E há aqueles que simplesmente não podem ser naturalizados, como a violência contra a população feminina. Nosso país vem acumulando estatísticas que revelam uma realidade inaceitável. Milhares de pessoas continuam sendo assassinadas apenas por serem mulheres, enquanto milhões convivem todos os dias com diferentes formas de violência física, psicológica, patrimonial, moral ou sexual. 

Em 2025, registrou-se o recorde de 1.571 feminicídios, média de quatro mulheres mortas por dia, segundo o relatório 2026 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, recém-divulgado. Apenas no primeiro semestre de 2026, outros 741 casos foram contabilizados, conforme dados oficiais dos ministérios da Justiça e da Segurança Pública. A resposta para essa realidade não é única, pois passa por educação, acolhimento, ações de segurança pública, Justiça eficiente e transformação cultural. 

Porém, existe um fator que considero decisivo e que, muitas vezes, permanece em segundo plano: autonomia financeira. Quando observamos que 97% dos feminicídios são praticados por maridos, companheiros ou ex, torna-se impossível ignorar o peso da dependência econômica. Quantas mulheres permanecem em relacionamentos abusivos porque não têm renda própria? Quantas suportam agressões por não enxergarem uma alternativa para sustentar seus filhos ou reconstruir a própria vida? Quantas adiam uma denúncia porque não sabem como sobreviver depois dela?

Não se trata de afirmar que autonomia financeira elimina a violência. Seria simplificar um problema complexo. Entretanto, a independência proporciona algo indispensável: liberdade de escolha, que pode significar a diferença entre permanecer em uma situação de risco ou encontrar forças para sair dela.

É nesse ponto que o setor produtivo brasileiro pode e deve exercer um papel transformador. Durante muito tempo, a participação das empresas nesse debate limitou-se a campanhas de conscientização, muito importantes, mas insuficientes diante da dimensão do problema. Hoje, até que enfim, começa a ganhar força uma agenda que atua na origem de uma das principais vulnerabilidades femininas: o quão desigual são as oportunidades.

Na indústria paulista, esse compromisso tem se materializado em iniciativas concretas. Um exemplo inspirador é o programa Elas na Indústria, que acaba de entrar em sua sétima edição. Criado pela Fiesp e desenvolvido em parceria com o Ciesp, é uma estratégia para a formação de lideranças femininas, conectando executivas experientes a profissionais em ascensão para acelerar carreiras, ampliar competências e fortalecer redes de apoio.

Desde sua criação, em 2021, já contemplou quase 1.600 participantes. Mais de 23% delas relataram crescimento profissional após a conclusão da mentoria. São indicadores que demonstram como investir em desenvolvimento, liderança e protagonismo feminino produz resultados concretos, tanto para as profissionais quanto para as organizações.

Esse tipo de iniciativa merece ser observada sob uma perspectiva que vai além da gestão de pessoas. Quando uma empresa amplia oportunidades para mulheres ocuparem posições de liderança, ela não está apenas promovendo diversidade ou aprimorando seus indicadores de governança. Está fortalecendo a autonomia econômica de centenas de profissionais. Está ampliando sua capacidade de decisão sobre o próprio futuro. Em muitos casos, está ajudando a construir condições para que elas jamais precisem permanecer em ambientes marcados pelo medo ou pela violência.

Acredito que essa seja uma das formas mais inteligentes de responsabilidade social empresarial: criar oportunidades reais de crescimento, geração de renda e desenvolvimento profissional. A inclusão produtiva não deve ser vista apenas como política de recursos humanos, pois também representa uma poderosa ferramenta de proteção social.

Nada substitui o papel e a responsabilidade do Estado no enfrentamento da violência contra a mulher. É indispensável fortalecer as políticas públicas, ampliar a rede de proteção, garantir respostas rápidas da Justiça e investir cada vez mais e melhor em educação. Só assim será possível mudar padrões culturais enraizados.

Seria um equívoco imaginar que o setor privado não tem responsabilidade nesse processo. Empresas e entidades de classe influenciam culturas, criam referências, movimentam economias e ajudam a redefinir oportunidades. Quando escolhem investir na capacitação feminina, contribuem para uma sociedade mais justa e mais segura.

*Rafael Cervone, engenheiro têxtil, é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).