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Na primeira década dos ODS avançamos menos do que deveríamos. Por isso, os brasileiros terão imensa responsabilidade nas eleições de 2006, pois escolherão os representantes do Poder Executivo e do Legislativo incumbidos do dever de conduzir nosso país na linha de chegada da maior agenda de desenvolvimento sustentável já promovida pela humanidade.

Os candidatos aos cargos de presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais a serem eleitos em outubro próximo, cujo prazo para registro das candidaturas termina dia 15 deste mês de agosto, terão um compromisso adicional com a população brasileira e a comunidade internacional: os mandatos, que começarão em 2027, coincidirão com os quatro anos finais para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, dos quais nosso país é signatário e que expiram em 2030. Precisamos fazer nesse curto período o que não realizamos em toda a década transcorrida desde o início oficial dessa agenda, em janeiro de 2016. 

O desafio é imenso, pois, embora os relatórios do Sistema ONU no Brasil mostrem avanços em iniciativas relacionadas ao combate à fome, proteção social, saúde e fortalecimento institucional, persistem numerosos gargalos, cuja solução é decisiva para alcançarmos um patamar mais elevado de desenvolvimento socioeconômico. Os problemas mais agudos dizem respeito à redução das desigualdades, qualidade do sistema gratuito de Educação Básica e Técnica, produtividade, geração de empregos formais em larga escala, inovação, infraestrutura resiliente, saneamento, adaptação às mudanças climáticas e consolidação de instituições públicas mais eficientes e transparentes.

Políticas de Estado, mais do que planos pontuais de governos, são importantes para o avanço dos indicadores. Entretanto, também é fundamental que os setores de atividades tenham bom desempenho, pois índices elevados de crescimento econômico são decisivos para o êxito dos objetivos estabelecidos pelas Nações Unidas no âmbito da Agenda 2030, à qual são aderentes 193 países. 

Nesse contexto, a indústria tem papel estratégico, pois está presente de maneira transversal em todos os 17 ODS: erradicação da pobreza e empregos formais de qualidade para redução das desigualdades (números 1 e 10); segurança alimentar por meio da agroindústria (2); medicamentos, equipamentos e tecnologias para a saúde (3); soluções para educação e transformação digital (4); inclusão produtiva para mulheres e jovens (5); tecnologias para uso racional da água (6); eficiência e transição energética (7); crescimento dos empregos formais (8); inovação e infraestrutura (9); materiais para cidades sustentáveis (11); padrões responsáveis de produção e consumo/economia circular (12); descarbonização dos processos produtivos (13); soluções para conservação dos recursos naturais (14 e 15); e cadeias produtivas baseadas em inovação, integridade e parcerias (16 e 17).

Nenhum outro setor de atividade apresenta tamanha capacidade de irradiar impactos positivos, em múltiplas cadeias de valor, sobre quase toda a Agenda 2030.

É nesse ponto que a competitividade se torna uma prioridade nacional de desenvolvimento sustentável. Se queremos acelerar os ODS, precisamos criar melhores condições para que os empreendedores da produção possam investir mais, inovar mais e gerar mais empregos. Isso implica reduzir o “Custo Brasil” de modo significativo, ampliar a segurança jurídica e pública, assegurar previsibilidade regulatória, construir um ambiente macroeconômico com juros estruturalmente menores, ampliar o acesso ao crédito, promover isonomia tributária entre a produção nacional e os bens e mercadorias importados e perseguir o equilíbrio fiscal. São condições básicas para a estabilidade econômica e os investimentos de longo prazo.

A indústria brasileira está preparada para fazer sua parte. Tem conhecimento, capacidade tecnológica, capital humano, compromisso crescente com sustentabilidade e experiência para liderar processos de inovação em todas as cadeias produtivas. No entanto, nenhum setor prospera de modo robusto em um ambiente de incertezas permanentes e excesso de custos. É necessário ter os três poderes também comprometidos com o mesmo propósito.

Chegamos a um momento decisivo. Na primeira década dos ODS avançamos menos do que deveríamos. Por isso, os brasileiros terão imensa responsabilidade nas eleições de 2006, pois escolherão os representantes do Poder Executivo e do Legislativo incumbidos do dever de conduzir nosso país na linha de chegada da maior agenda de desenvolvimento sustentável já promovida pela humanidade.

*Rafael Cervone, engenheiro têxtil, é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).