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PIB: cenário é de muita incerteza

Restrições relativas à oferta e à pressão de custos, impactos da deterioração das condições macroeconômicas na demanda doméstica e conflito na Ucrânia geram riscos ao cenário econômico

O PIB apresentou aumento de 4,6% em 2021, resultado que em grande medida reflete a base fraca de comparação. Em 2020 O PIB caiu 3,9%. Os principais destaques, pela ótica da oferta, foram o setor de serviços (+4,7%) e a indústria total (+4,5%) puxada pela transformação (+4,5%) e a construção civil (+9,7%). Pelo lado da demanda, destaque para o consumo das famílias (+3,6%) e a Formação Bruta de Capital Fixo (+17,2%).

A economia brasileira enfrentará grandes desafios em 2022. Além das restrições relativas à oferta e pressão de custos, a demanda doméstica deverá ser fortemente afetada pela deterioração das condições macroeconômicas, em que o forte aperto monetário terá grande peso. O conflito na Ucrânia, a depender da sua intensidade e duração, adiciona maior incerteza e riscos para o cenário econômico doméstico.

Associada à pandemia que desalinhou as cadeias produtivas globais, desde 2020 o setor industrial vem enfrentando falta de componentes, com destaque para componentes eletrônicos, problemas logísticos com elevação no prazo de entregas e expressivo aumento dos custos de fretes e insumos.  A pressão de custos comprimiu significativamente as margens da indústria, comprometendo as decisões de investimento à frente. As expectativas apontam para a normalização das cadeias globais de suprimentos entre o final de 2022 e meados de 2023.

Cenário externo - O conflito na Ucrânia pode ocasionar pressão adicional nos custos industriais. O mundo vive um momento de alta da inflação. Com o conflito, a depender da intensidade e extensão, os preços poderiam ser ainda mais pressionados. Um exemplo é o preço do barril do petróleo que vem exibindo forte alta, movimento que terá impacto no preço dos derivados do petróleo, como a gasolina. Impactos significativos também estão sendo sentidos nos preços das commodities agrícolas como o trigo, a soja e milho, que por fim terão efeitos altistas sobre os preços das proteínas animais.

A guerra na Ucrânia também pode afetar negativamente o comércio mundial. As sanções econômicas impostas à Rússia devem levar ao enfraquecimento de sua economia, e a reboque, a de outros países também, principalmente na Europa. Com a disparada no preço internacional das commodities, um risco que se apresenta é de estagflação na economia global, configurando um quadro de inflação maior e mais resiliente, aliada a uma desaceleração econômica da economia mundial.

Em paralelo, os condicionantes da demanda doméstica vêm mostrando deterioração. O Banco Central vem promovendo aperto monetário excessivo, elevando a taxa básica de juros Selic para dois dígitos (10,75% em fevereiro). A expectativa do mercado aponta que a taxa Selic deverá atingir 12,25% este ano. Essa política monetária fortemente contracionista já está impactando a atividade econômica, como pode ser percebido na perda de dinamismo nas vendas do varejo de produtos sensíveis ao crédito, como móveis e eletrodomésticos.

Ademais, cabe destacar que o aumento dos preços administrados respondeu por cerca de 40% do avanço do IPCA em 2021 (10,1%), com a gasolina (47,5%), gás de botijão (36,9%) e energia elétrica (21,2%) sendo os principais “vilões”. Ações da política monetária têm pouco impacto sobre a evolução desses preços. Outro ponto importante é a inflação elevada e a recuperação da ocupação informal, fatores que vêm provocando queda do rendimento do trabalho, que combinada com os níveis elevados de desemprego (cerca de 12 milhões de desempregados), são outros elementos que geram um cenário bastante delicado para a demanda doméstica neste ano.

Por tudo isso, o ano de 2022 será bastante desafiador para a economia brasileira. A projeção da Fiesp é de estabilidade (0,0%) do PIB neste ano. No caso da indústria de transformação, a projeção é de uma queda de 1,5% que, se confirmada, será o sexto recuo do PIB do setor num período de dez anos. Válido reconhecer que o grau de incerteza no momento está maior do que o usual, elevando o desafio das projeções econômicas. De qualquer forma, por outro lado, a incerteza dificulta as decisões de investimento e consumo, e isso evidentemente joga contra a evolução do PIB.


Grandes atividades econômicas (ótica da oferta):

  • A Agropecuária caiu 0,2%. O PIB do setor foi prejudicado pela quebra da segunda safra de milho (-15,0%), a segunda maior cultura de grãos do país.
  • A Indústria Total apresentou crescimento de 4,5% no ano, após recuar 3,4% em 2020.
    • Dentro da indústria, os grandes destaques foram a construção civil com alta de 9,7% e a indústria de transformação com aumento de 4,5%. Em 2020 o PIB da indústria de transformação recuou 4,4%.
    • O PIB da indústria extrativa subiu 3,0% e o SIUP (Serviços Industriais de Utilidade Pública: eletricidade, gás e água) ficou praticamente estável (-0,1%).
  • O setor de Serviços, outro destaque pela ótica da oferta, registrou alta de 4,7%.


Resultado pela ótica da demanda:

  • Os Investimentos (FBCF)avançaram 17,2%.
    • A taxa de Investimento foi de 19,2% em 2021, 2,6 percentuais acima da taxa de 16,6% verificada em 2020. O aumento da taxa de investimento reflete a contabilização das plataformas de petróleo no computo da FBCF. Com o fim do REPETRO em 2019, as plataformas de petróleo pertencentes a Petrobrás tiveram mudança de registro e passaram ser contabilizadas como investimento. 0,40 p.p reflete a contabilização das plataformas de petróleo. Outro fator importante para a alta da taxa de investimentos em 2021 foi a alta dos preços relativos (o preço dos investimentos subiu mais do que o preço médio da economia). Expurgando esses fatores excepcionais, a taxa de investimento em 2021 seria de 17,2%.
    • A produção de Bens de Capital apresentou forte avanço no ano, e foram destaque em 2021. As principais influências no resultado de Bens de Capital em 2021 foram:
      • bens ligados à Agricultura (+34,9%).
      • construção (+52,7%) e
      • transporte (+40,2%).
    • O Consumo das Famílias aumentou 3,6% em 2021, após cair 5,4% em 2020.
    • Já o Consumo do Governo cresceu 2,0% no ano passado. Em 2020, apresentou queda de 4,5%.
    • No setor externo, as Exportações registraram alta de 5,8%. Já as Importações exibiram avanço de 12,4%.

Resultado do PIB no 4º trimestre de 2021 

  • No 4º trimestre de 2021, o PIB apresentou expansão de 0,5% frente ao trimestre anterior, na série com ajuste sazonal. O resultado veio acima das expectativas do mercado (0,1%).

Grandes atividades econômicas (ótica da oferta):

  • A Agropecuária mostrou alta de 5,8% na comparação com o trimestre anterior.
  • A Indústria Total recuou 1,2% no último trimestre com relação ao anterior.
    • A Indústria de Transformação apresentou queda de 2,5% no 4º trimestre. O ano de 2021 o PIB do setor recuou em todos os trimestres (1º trimestre: -0,7%; 2º trimestre: -2,7%; 3º trimestre: -1,4%).
    • A Indústria Extrativa retraiu 2,4% na comparação com o trimestre anterior.
    • A Construção Civil registrou alta de 1,5% no último trimestre do ano.
    • Os Serviços Industriais de Utilidade Pública (SIUP) caíram 0,2% na passagem trimestral.
  • O setor de Serviços cresceu 0,5% com relação ao 3º trimestre.

Resultado pela ótica da demanda:

  • Os Investimentos (FBCF) aumentaram 0,4% no 4º trimestre em relação ao 3º trimestre.
  • O Consumo das Famílias avançou 0,7% no 4º trimestre.
  • O Consumo do Governo apresentou aumento de 0,8%.
  • No setor externo, as Exportações registraram queda de 2,4% na comparação com o trimestre anterior. As Importações, por sua vez, subiram 0,5% no trimestre.

Simulações

  • Simulações sugerem que 2022 será um ano de fraco desempenho do PIB. O cenário base (projeção FIESP) é de estabilidade (0,0%) do PIB. Já um cenário alternativo considera uma contração de 0,5% do PIB em 2022.

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