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Especialistas em comércio exterior defendem integração entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai

Potencial de crescimento das exportações agrícolas esbarra em problemas regulatórios e dificuldades para agregar valor

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

O presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp (Cosag), Jacyr da Costa Filho, disse nesta segunda-feira (3 de abril) que é uma necessidade a união de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai para fazer frente ao desafio representado pela crescente complexidade das transações internacionais. A declaração foi feita depois que ele ouviu representantes do Grupo de Países Produtores do Sul (GPS) e o presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp (Coscex), Rubens Barbosa.

Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e ex-presidente do Cosag, fez análise semelhante. “O Brasil, para realizar seu potencial de ser o grande fornecedor de alimentos do mundo, precisa se integrar a seus vizinhos”, afirmou. A presença de presidentes na região com visão favorável aos negócios se soma às oportunidades criadas por ações do governo Trump (EUA), disse.

O tempo das reformas econômicas no Brasil e na Argentina é convergente, destacou Barbosa, presidente do Coscex. Das propostas defendidas pelo GPS, destacou como de grande importância a criação de uma frente comum para lidar com os grandes importadores líquidos de alimentos. Ela deve ser implantada, afirmou, em preparação para o que acontecerá alguns anos à frente, quando somente Mercosul e EUA serão capazes de ampliar a oferta agrícola.

“Como vamos fazer para maximizar a receita na área agrícola? Temos que começar a pensar em como fazer a comercialização conjunta da produção do agronegócio e como agregar valor”, disse. É uma das três áreas que podem dar contribuição regional importante, ao lado da integração energética e da logística, especialmente por ferrovia.

Mas Barbosa vê problemas. Há uma desintegração, afirmou, sem revitalização do Mercosul, apesar do discurso dos governos. Efetivamente, discute-se hoje o mesmo que 15 anos atrás. Em sua análise, o Mercosul ficou paralisado e se isolou completamente.

Em relação ao Nafta, considera que não haverá mudanças substanciais – apenas coisas cosméticas. Com isso não serão criadas muitas oportunidades de negócios para os países do Mercosul.

O GPS é uma rede de instituições privadas da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, que propõe articular as instituições que a compõem de modo a conseguir o posicionamento em temas relacionados ao agronegócio com uma visão estratégica do mundo e da região. Gera informações e análises sobre temas de interesse dos membros, para fomentar o diálogo público-privado em cada país e entre eles. E também difunde informações e ideias em diversos níveis. Representantes do GPS participaram da reunião do Cosag, que teve como tema “Mercosul: Política, Agronegócio e os Desafios da Integração”.


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Reunião do Cosag de 3 de abril, em que foi discutida a integração de Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Horacio Sánchez Caballero, coordenador do GPS, fez a apresentação “Panorama Político e do Agronegócio na Argentina”Segundo Caballero, o atual governo argentino se dispôs a se abrir ao mundo, retomando relações com organismos internacionais e se relançando regionalmente. Além disso, defende a abertura ao capital estrangeiro.

O agronegócio é visto como motor do desenvolvimento e foi alvo de uma série de medidas para melhorar o ambiente de negócios, com agenda mais agressiva de abertura de mercados.

Há incerteza no panorama político e econômico mundial, exigindo flexibilidade e atenção, disse. O governo toma medidas de curto prazo para amortecer choques, e no longo prazo quer mudança estrutural econômico-social, e especificamente no agronegócio se espera consolidar o crescimento, agregar valor.

Segundo Juan Ángel de La Fuente, do Comitê Gestor do GPS, o Uruguai, com seu pequeno mercado consumidor interno, precisa se integrar. O país quer mais Mercosul, mas um melhor Mercosul, com a eliminação de entraves ao comércio regional. Em relação às negociações do tratado de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia, o Uruguai considera fundamental o tema da agricultura. Com a China, a negociação, sempre dentro do Mercosul, tende a ser mais complexa.

“Desafios da Integração Regional e Terceiros Mercados” foi a apresentação a cargo de Martin Piñeiro, membro do GPS. Há, disse, convergência nas políticas agroindustriais entre os quatro países do GPS, mas todos passam por problemas políticos, e o setor privado deve levar-lhes propostas com uma visão regional. A região deve crescer mais que o resto do mundo na produção de alimentos, ressaltou.

Exportar é imprescindível para a região, que precisa abrir mercados num contexto internacional de crescente complexidade, afirmou Piñeiro. É importante tentar evitar que a OMC se enfraqueça. E é preciso reforçar a capacidade de negociação e a colaboração regional. Novos mercados podem se abrir, destacou.

É preciso, disse, criar uma frente comum em relação aos grandes importadores líquidos (UE, Japão, Oriente Médio e outros).

O segredo é a integração produtiva, como mostra o exemplo da Europa, disse, o que exige a facilitação do comércio de bens intermediários. Também é preciso trabalhar pela integração tecnológica, mais uma vez seguindo o exemplo europeu, para permitir os grandes investimentos necessários no setor.

Alexandre Pontes, secretário substituto de Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), fez apresentação intitulada “Desafios da integração: Regional e Terceiros Mercados”.

Defendeu a troca de informações para integração da produção regional, a integração tecnológica, o avanço na propriedade intelectual. Também a promoção em investimentos. Há, lembrou, projetos de infraestrutura de integração regional.

O embaixador do Brasil nos EUA, Sérgio Amaral, participou da reunião do Cosag. O mundo passa por grandes transformações, quase revoluções, disse, e muitas vezes não nos damos conta da profundidade dessas mudanças e de seu efeito sobre nós. A globalização, disse, é contestada, assim como a democracia liberal e a ordem internacional criada após a Segunda Guerra Mundial. Cria-se um grau elevado de incerteza. O governo Trump passa por algo parecido. Aspecto positivo para nós é o forte apoio ao setor privado, disse Amaral. O Brasil não é alvo nem é questionado em suas políticas. Não tem superávit comercial com os EUA. Também não rouba empregos norte-americanos; pelo contrário, brasileiros investem e criam vagas nos EUA.

Nosso grande desafio é pôr em movimento as oportunidades que surgem, afirmou, e o setor privado tem papel fundamental nisso. É preciso ter mais ambição e ajudar a construir as relações entre os dois países e a criar soluções. Empresários brasileiros deveriam conversar com os norte-americanos para tentar o entendimento. Os governos de ambos os países tenderiam a apoiar essas iniciativas. Defesa, energia, saúde estão entre os setores com potencial. E a região também pode se beneficiar.