Economia Circular oferece oportunidades e estratégias viáveis para a indústria - CIESP

Economia Circular oferece oportunidades e estratégias viáveis para a indústria

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

As oportunidades da Economia Circular (EC) para os negócios e sua prática foi o tema central de encontro nesta sexta-feira (11/11). A Economia Circular se apresenta como alternativa ao atual modelo linear de produção e consumo (extração, uso e descarte), que tem em vista não apenas o crescimento econômico, mas se associa a um ciclo de desenvolvimento que visa uma forma mais eficiente de uso dos recursos naturais. Assim, as empresas podem reduzir custos e perdas produtivas e aumentar a competitividade.  Outro benefício é a geração de novas fontes de receita e de modelos de negócios.

Kalil Cury Filho, diretor do Departamento de Desenvolvimento Sustentável (DDS) da Fiesp, esclareceu que parceria iniciada no ano passado entre a Federação e FIA Business School, conjuga os esforços das duas instituições na implementação de ações de sustentabilidade relacionadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e ao ESG (Governança ambiental, Social e Corporativa).

Para ele, “a indústria é a que representa melhor essa Economia Circular porque extrai, produz, transforma, descarta. Não é um ciclo fechado, mas precisa evoluir e aproveitar o valor dos resíduos gerados a fim de contribuir com a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o combate às mudanças climáticas”.

Na abertura do encontro, a Profa. Dra. Monica Kruglianskas, da Fia Business School, afirmou que encontrou pontos-chave com a indústria, com a Fiesp, e por isso a parceria foi efetuada, nesse diálogo a fim de sensibilizar e fomentar o debate entre os atores dos diversos setores e os experts “para fazer a mudança necessária para conseguirmos sobreviver neste planeta que é o único que a gente tem”.

Para o Prof. Dr. Flávio Ribeiro, da Fia, os fatores econômicos são importantes também e a indústria integra essa transformação. Apesar de ser um conceito relativamente novo, a Economia Circular, essa ecologia industrial, revisita o ambiente do mundo dos negócios, é uma porta de entrada, um vetor para a economia de baixo carbono e transição energética. “Mais do que uma questão ambiental, estamos em uma crise econômica, de abastecimento de produtos ambientais, pois a quantidade de materiais disponíveis no planeta é única, não cresce de acordo com a demanda crescente por produtos. E a gente ainda descarta grande quantidade do que se produz”, contextualizou, ao ancorar a EC como alternativa ao modelo tradicional e linear de processos.

Ele detalhou os ciclos técnicos, que estão caminhando, e os ciclos biológicos, que ainda precisam caminhar, e talvez aí estejam as grandes oportunidades. Um exemplo citado é a produção de biodiesel a partir de óleo de cozinha. Em sua reflexão, devem-se mudar valores e hábitos arraigados e se pensar em novas formas de produção e de relação com o cliente.

Uma possibilidade apontada por ele é o fato de um computador devolvido para remanufatura e, depois de ajustado, vendido a outro cliente, ou seja, trazer os produtos de volta em um sistema de logística reversa. Ou seja, recuperar produtos, componentes e materiais ao fim da vida útil, aumentando a resiliência, reduzindo a dependência de recursos primários e finitos. Muda-se a forma de fazer negócio, o que aproxima o consumidor e a empresa, citando o caso de uso compartilhado, tendo os produtos como serviço ao se romper o paradigma da propriedade; substitui-se o produto físico por alternativas virtuais. Vender mais contratos e nem tanto produtos e enfatizou que hoje os dados estão mais na nuvem, o que exige menos aquisição de equipamentos. “Corporativamente, a EC é uma via, uma estratégia para tornar as empresas mais sustentáveis”, disse em termos de GEE e ESG, inclusive. Nesse sentido, o design do produto é essencial para fins de reutilização e integração das cadeias produtivas e educação do mercado para o reuso e o compartilhamento.

 

O case da EcoPanplas foi apresentado por Felipe Cardoso, CEO & fundador da empresa. Fotos: Karim Kahn/Fiesp
O case da EcoPanplas foi apresentado por Felipe Cardoso, CEO & fundador da empresa. Fotos: Karim Kahn/Fiesp

 

EcoPanplas: inovação em processos

O case da EcoPanplas, apresentado por Felipe Cardoso, CEO & fundador da empresa, explicou como trabalham com embalagens plásticas contaminadas e como desenvolveram sistema para recuperá-las, resolvendo uma questão antiga do mercado, pois o que existia, na reciclagem, era a ‘lavagem’ com água. Cada litro de óleo se transforma em até 8 kg de resíduo perigoso e antes não era possível remover todo o óleo do plástico, mesmo com o uso de detergente, o que gerava uma matéria-prima reciclada de baixa qualidade.

No Brasil, um bilhão de garrafas plásticas de óleo lubrificante são descartadas, representando dois milhões de litros de óleo residual e desperdício de R$ 600 milhões. São 960 toneladas de resíduos sólidos perigosos e 120 bilhões de litros de água que podem contaminar o solo.

O sistema da Ecopanplas, em sua produção ecológica, não se utiliza da água e não gera resíduos em seu processo. Observa-se, ainda, o  baixo custo, 30% menor do que o processo com água. Nesse novo modelo de negócio, gera-se valor econômico, escalabilidade de processo, melhor preço para o material e coleta atrativa, segundo explicou o expositor. Como resultado do trabalho da EcoPanplas, mais de 10 milhões de embalagens processadas, mais de 500 t de plástico reciclado e mais de 17 mil litros de óleo recuperado.

Flextronics: remanufatura como processo

O case da Flextronics foi trazido por Josué Graton, gerente de projetos estratégicos em Economia Circular da empresa voltada à manufatura de eletroeletrônicos, áreas automotiva e de saúde. No Brasil, as plantas se encontram em Sorocaba, Jaguariúna e Manaus e todas estão estruturadas em um ecossistema inovador.

No processo, a compra de partes e peças, o tratamento necessário para que retornem ao mercado, com foco no pós-consumo, para transformar o que é recolhido em novo produto, trabalhando-se o resíduo pós-industrial também. Para isso, inclusive, montaram uma plataforma digital, um e-commerce, a fábrica, a fim de comercializar os remanufaturados para seus dez mil colaboradores.

Desse modo, não só a vida útil é estendida, mas ainda há a mitigação. O design é aliado para o aprimoramento do processo, por meio do instituto de tecnologia da Flextronics, que avalia a alteração da composição de material, a reciclabilidade, avaliando vários cenários e desenvolvendo tecnologia para viabilizar a EC.

Um dos grandes desafios enfrentados foi a eficiência logística em seus mais de 400 pontos no Brasil, pois o maior custo do processo se refere ao transporte. Para resolver isso, desenvolveram um aplicativo que indica quando um coletor está cheio e, assim, não se perde mais uma viagem, o que ocorria antes: passava-se pelo ponto, mas não havia conteúdo a ser recolhido.

Entre os números apresentados por Graton, mais de 30 mil toneladas de resíduos pós-industriais e pós-consumo recolhidos, mais de 200 postos de trabalho gerados, a capacitação de mais de mil estudantes e parcerias estabelecidas com inúmeras cooperativas. Nas plantas, adotou-se modelo de crédito de carbono e a partir deste ano a expectativa é de se caminhar para o net zero, reduzindo a pegada de carbono. Ele também enfatizou o trabalho com os pilares ESG.