OPINIÃO – Eu quero uma furadeira ou um furo?

Marcelo é diretor de Meio Ambiente do CIESP Jundiaí e CEO do Grupo Fox

O conceito de economia circular está relacionado à ideia de redução, recuperação e reciclagem de materiais e energia, fazendo um contraponto com a economia linear, que tem como foco a produção e o consumo em massa. Assim, enquanto uma incentiva a redução de extração, a outra estimula a chamada obsolescência programada, que é quando um produto lançado no mercado se torna inutilizável ou ultrapassado em um curto período de tempo e propositalmente, para que as empresas lancem novos produtos e estimulem o consumidor a fazer cada vez mais compras.

A economia circular é vista como um elemento chave para promover a separação entre o crescimento econômico e o aumento do consumo de recursos, relação até aqui vista como inevitável. O CEO da Indústria Fox, Marcelo Souza, explica que “para que haja prosperidade no modelo atual, quanto mais rápido for o descarte, a produção e a extração, mais próspero é o modelo”.

Levando em consideração que vivemos em um mundo com recursos findáveis, é de grande importância entender de forma clara que os benefícios que a economia circular pode trazer vão além da preservação de materiais. Também tem a ver, por exemplo, com a transição do modelo de compra e venda para o serviço.

“O que a economia circular prega é que não precisamos ter algo novo para fazer dinheiro. Então saímos de um modelo de compra e venda para um modelo de serviços. E isso é muito bom, porque se a sociedade estiver pautada em um modelo de serviços, se torna possível pulverizar a geração de receita”, esclareceu.

Dessa forma, é possível entender que a principal diferença entre economia linear e circular é que a prosperidade da primeira está ligada à vida curta dos produtos, já a segunda, gera riqueza com a vida longa dos produtos.

Relação com o meio ambiente

A relação prejudicial da economia linear com o meio ambiente fica clara quando se percebe que em seu cenário ideal para desenvolvimento, é preciso, por exemplo, que a indústria de 1° setor esteja focada na extração de matéria prima, no processamento dos produtos e no descarte.

Para exemplificar os possíveis danos à natureza, Marcelo Souza compartilhou um dado importante. “A grande São Paulo gera, por dia, volume de lixo suficiente para construir 23 Cristos Redentores em peso. Esse é o grande impacto, pois se produz muito e se descarta muito”.

Já a economia circular tem como proposta produzir produtos melhores, com fácil manutenção, para que tenham uma vida útil alongada. “Se eu estou produzindo apenas um computador, eu consumo menos energia elétrica, combustível, matéria prima. Ou seja, toda a poluição e extração de recursos naturais que são necessários para muita produção, na economia circular é minimizada por estar pautada em serviços, manutenção e prolongamento de vida”, apontou.

Impactos da economia circular na geração de empregos

No âmbito econômico, o modelo circular pode colaborar principalmente com a geração de empregos, pois está diretamente ligado à prestação de serviços e ao aumento do volume de mão de obra.

“Na maioria das vezes, compramos um produto, mas queremos o que ele gera e não ele em si. Tem aquela máxima ‘Eu quero uma furadeira ou um furo?’. Então essa questão de produto e serviço é um conceito muito grande dentro da economia circular”, explicou.

A ideia é que não seja mais uma linha de produção fabricando, por exemplo, vários computadores por segundo, mas sim uma rede de prestadores de serviços que vão atender os usuários com treinamentos e demais atualizações necessárias para melhorar a performance dos produtos adquiridos.

“O impacto é uma distribuição de renda muito melhor. Eu não vou ter uma fábrica gerando renda em São Paulo, mas vou ter uma fábrica em São Paulo que está gerindo uma rede nacional de assistência técnica”, exemplificou.

Ao comentar sobre o papel da Indústria Fox, que atualmente é referência mundial em tecnologia de reciclagem de equipamentos de refrigeração e a maior capacidade instalada de lixo eletrônico da América Latina, Marcelo destaca o comprometimento com o modelo econômico.

“Faturamos, ano passado, R$35 milhões mantendo o foco na economia circular e a meta desse ano é de R$50 milhões. Isso mostra que é possível ter faturamento sem ter que extrair novos materiais”, afirmou.

O Brasil e a economia circular

Para Marcelo, no que diz respeito à economia circular, o Brasil encontra-se em um estado embrionário. “Existem muitas instituições voltadas para economia circular, contudo, nosso país é muito reativo. Vemos empresas como Renault e Philips, entre muitas outras, fora do Brasil tomando iniciativas importantes em relação à circularidade, mas aqui tudo é sempre reativo”.

Infelizmente, ainda se fala muito pouco sobre o assunto no país e isso mostra que, apesar de muito importante, até agora não se tornou um tema popular, principalmente por falta de incentivo e informação.

“O Brasil está, no que tange à infraestrutura, na minha concepção, não desamparado, embora não haja muitas formas de expandir os negócios nesse segmento. Existem mentes brilhantes, excelentes educadores e pesquisadores, existem leis, mas o empresariado brasileiro não conseguiu perceber que trabalhar com economia circular é mais saudável financeiramente do que trabalhar com economia linear”, destacou.

Já é um consenso mundial de que os modelos econômicos que prezam pela sustentabilidade são os que vão prosperar nos próximos anos, porque também cooperam diretamente com a preservação do meio ambiente.

O pensamento não deve mais ser, por exemplo, sobre o que fazer com os lixões, mas sim sobre como não acumular lixo. É preciso discutir soluções e formas de incentivo em todos os espaços, seja nas universidades, governos e até individualmente, para que possamos cooperar com a ampliação da economia circular no Brasil, aprendendo a gerar receita por meio de serviços e não apenas descartando e comprando novos produtos.

Reportagem publicada originalmente no site do Instituto Millenium

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