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Qual a perspectiva do panorama econômico brasileiro e mundial? Tema de encontro entre especialistas

Para o economista Nilson Teixeira, cenário do Brasil para 2022 é mais uma vez desafiador

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

Qual o atual panorama econômico brasileiro e mundial? Esse foi o desafio do encontro do Conselho Superior de Economia (Cosec) da Fiesp, realizado nesta sexta-feira (29/10), com o expositor Nilson Teixeira, economista.

Teixeira avalia que o cenário global para 2022 será benigno com perspectivas favoráveis no médio prazo, ou seja, com crescimento significativo nos países centrais com a elevação da demanda por serviços e relativa estabilidade por bens. Em parte, esse cenário se deve à vacinação contra a Covid-19, mas com um vaivém de recuos e avanços registrados em função da variante Delta em alguns países, disse Teixeira ao avaliar o panorama mundial.

Para ele, ao lado da incidência de estímulos fiscais expressivos, há também os monetários adicionais nos Estados Unidos, na área do EURO e também no Japão. Registra-se também a elevação do número de postos de trabalho, como nos EUA, o que acarretará o aumento da renda real mesmo diante de uma inflação indesejada.

Entre os riscos apontados, a inflação mais elevada, promovida pela persistência inflacionária, a pressão adicional exercida pela commodities e a maior duração dos desequilíbrios nas cadeias de suprimentos. Ele observou que espera que novas variantes da Covid-19 não surjam, pois alterariam a avaliação desse quadro, fatores que se somariam à atual alta inflacionária, mais as incertezas existentes, o que levaria a uma desaceleração ainda maior da economia global.

Em um momento de incerteza, a questão é saber para onde vai a tendência, apesar do cenário favorável, na margem, com a existência de indicadores de confiança e de compradores dos setores industrial e de serviços, sinalizando preocupação sobre a desaceleração, e um certo recuo em função de algumas especificidades.

Estados Unidos

Nos Estados Unidos houve uma certa desaceleração no 2º semestre de 2021, com corte das projeções de crescimento, reflexo das cadeias de suprimento, problemas no transporte marítimo e aéreo, o desembaraço e a entrega do produtos para a empresa, já presentes antes da pandemia, mas que tiveram maior demanda.

Mas, nos EUA, os problemas nas cadeias de suprimentos não foram gerados por restrição na oferta, mas uma ociosidade de 76% na maioria dos setores frente a 2019. A previsão da taxa de desemprego é de 4,4%, em 2021, e de 3,8%, em 2022. No 3º trimestre do ano passado, a taxa de desemprego havia chegado a 10% e houve a perda de quase 21 milhões de postos de trabalho [abril de 2020], mas o país conseguiu se recompor com a oferta de 11 milhões de empregos (maio-agosto), “mas há um exército que não busca emprego”, pontuou o expositor, referindo-se àqueles de faixa salarial mais baixa, os que ainda têm receio de contaminação, cenário impactado também pela mudança do perfil dos empregos disponíveis. Hoje, o número de vagas abertas e não ocupadas é de 10,5 milhões.

Outro aspecto abordado por Pereira se refere à crise de suprimentos, o que eleva os preços industriais e gera uma discussão se essa inflação é transitória ou não. Para ele, é transitória num período mais longo, mas persistente em um período mais curto. Os EUA também planejam a retirada de estímulos fiscais de cerca de 3% do PIB até o fim de 2022 e “nossa previsão é de aumento da meta de taxa do fed funds para 1%, em 2022, e 2%, em 2023, mais do que o apreçado na curva de juros.

Zona do Euro

Na zona do EURO, a desaceleração é mais lenta do que nos EUA em função das restrições na cadeia de suprimentos, além do impacto da variante Delta, que prejudicaram a expansão da economia no 3º trimestre de 2021. Os maiores estímulos fiscais, com alta de investimentos pelo novo governo alemão, contribuirá para uma expansão econômica, em 2022, mais sólida O crescimento do PIB na área do Euro deve ficar em 5%, em 2021, e 4%, em 2022, apesar dos riscos de problemas mais a longo prazo na cadeia de suprimentos.

No Reino Unido, há uma resposta monetária à alta inflacionária provocada pela alta dos insumos para manufaturados e serviços em seu maior patamar, além do reajuste semestral dos preços de energia elétrica e um mercado de trabalho impactado pelo Brexit.

China

Na China, na avaliação de Teixeira, a regulação somada às intempéries, as enchentes ocorridas em várias regiões do país, pararam a economia no 3º trimestre de 2021, que não registrou crescimento. O resultado é que os governos locais têm sido forçados a mando do governo central a impor restrições ao funcionamento de setores intensivos em energia e que são mais poluentes de olho na descarbonização para a transição rumo à economia verde, com a neutralidade de carbono em 2060  e pico de emissões em 2030. Assim, a produção de aço se reduziu em 10% em relação ao ano passado.

Esses fatores contribuíram para o ajuste das projeções de expansão da economia no 4º trimestre deste ano, com projeção de crescimento de 8,5%, em 2021, e 5,5%, em 2022. Também houve o efeito da crise do mercado imobiliário provocado pela empresa Evergrande, mas que não deverá ter impactos duradouros, de acordo com o governo chinês.

Na China, há um projeto de aumentar a participação da renda proveniente do trabalho no PIB, com a consequente redistribuição da renda e geração de mais oportunidades para todos, além do aprimoramento do sistema previdenciário, com melhor atendimento nas áreas rurais, e incentivo à inovação e pesquisa. Nos últimos 30 anos, o PIB chinês aumentou 14% ao ano desde 1990 e, em termos per  capita, 13%. Ao tratar da transformação da economia chinesa, Teixeira lembrou que o analfabetismo recuou ao ritmo de 13% ao ano e foi erradicada a extrema pobreza. Para o próximo ano, espera-se 5,5% de expansão econômica.


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Brasil

É nesse cenário global  relativamente benigno que o Brasil se insere, segundo Teixeira, que apontou os desafios para o Brasil: cenário menos favorável para os emergentes, inflação alta e persistente, desaceleraçao da atividade com restrições nas cadeias de suprimentos, mais o avanço improvável de reformas estruturais, fatores que se somam ao atraso na aprendizagem, aliado ao abandono escolar, que tem impacto na produtividade, mais o clima pré-eleitoral e a incerteza fiscal.

“A inflação no Brasil deve ser mais persistente e o país irá convergir para um baixo crescimento do PIB”, apontou, ao tratar da desaceleração do índice no 1º e 2º trimestres e algo próximo a zero no 3º. “Para este ano temos 4,7% de expansão e para o ano que vem zero, na média. A economia não crescerá em relação ao 4º trimestre deste ano”, disse, em sua análise, ao avaliar que o desemprego demorará a recuar nos próximos trimestres, com possibilidade de recessão ainda em 2022, no cenário pessimista que apresentou.

Por outro lado, quanto ao crescimento sustentável da economia, entre 1980 e esta época, o índice de 2,3% ao ano se baseou muito na população ocupada e no bônus demográfico, se exaurindo nesta década, mas com baixa escolaridade, o que não ajuda a elevar a produtividade. Os investimentos públicos e privados são decrescentes. Com a estimativa de crescimento potencial inferior a 2%, mais próximo de 1,5%, sendo um pouco mais otimista.

Em relação às projeções inflacionárias, que tem aumentado acima da meta de 2021, Teixeira fez uma leitura de inflação declinante, porém lenta, e a alimentação, hoje na faixa dos 13%, espera-se que recue para até 9%, no próximos meses, pois o índice está associado ao comportamento das commodities e aos preços in natura.  Para 2022, a inflação da gasolina poderá ficar em um patamar próximo de 7% e a energia elétrica, que subiu 20% com a bandeira de crise hídrica, tem potencial deflacionário. Esses diversos fatores têm potencial de contaminação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e, por isso, concluiu que a inflação será declinante, mas ainda em patamar elevado.

Por fim, Teixeira criticou o fato de o país ter sido capturado pela “armadilha da renda média”, desde a década de 50, com certa estabilidade desde 1980, pois se optou pelo cenário de menor crescimento econômico do que cortar privilégios da classe média e alta e também do setor público. “Se não cortar gastos, será necessário aumentar impostos e o governo precisará reintroduzir a regra de resultado primário, opinou o especialista”, que concluiu que “teremos um ano desafiador. Há espaço para melhorar, mas também para piorar. O Brasil de 2022 traz um cenário mais uma vez desafiador”.

Nilson Teixeira é Ph.D. em Economia pela Universidade da Pensilvânia, tem mestrado em Economia pela PUC-RJ, graduação em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e graduação em Economia pela mesma instituição e sócio-fundador da Macro Capital Gestão de Recursos. Foi economista-chefe no Chase Manhattan e no Credit Suisse.