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Paulo Skaf: O verdadeiro golpe

Em artigo na Folha de S.Paulo, presidente da Fiesp e do Ciesp defende legitimidade do processo de impeachment

*Paulo Skaf

Muito se tem ouvido ultimamente a palavra golpe no debate político. Com frequência, para se referir ao processo de análise do pedido de julgamento e afastamento da presidente da República pelo Congresso Nacional. Esse processo, o impeachment, é previsto na Constituição Federal, vem sendo conduzido dentro das regras do Estado de Direito pelo Legislativo e se desenrola sob a vigilância do Supremo Tribunal Federal. No momento, cada instituição cumpre seu papel, dentro das regras do jogo da democracia. Não há qualquer sombra de golpe institucional.

Se formos, porém, buscar o significado da palavra golpe no dicionário, podemos, aí sim, apontar sua existência nas mais variadas dimensões da vida brasileira, muitas vezes tendo como autores aqueles que hoje tentam se colocar no papel de vítima.

Se golpe tem, entre suas definições, as de “ferimento ou pancada”, e também as de “desgraça e infortúnio”, chegamos à triste constatação de que vítima de golpe está sendo, sim, a nação brasileira.

Afinal, é ou não é um golpe para as forças produtivas do país, por exemplo, a redução de mais de 3% do PIB neste ano? Trata-se de uma verdadeira pancada, pois nossa economia encolhe. O golpe é maior ainda porque as expectativas para 2016 são também muito ruins. E não se venha por a culpa novamente em uma suposta crise mundial. A economia do resto do mundo vai crescer cerca de 3%, e a previsão para os países emergentes chega a 4%. Quem vem andando para trás somos nós.

Esse é um golpe e tanto, principalmente quando as dificuldades são agravadas por erros do governo, que só fazem aprofundar a recessão, que já ameaça virar depressão – triste palavra que designa também aqueles que sofreram duros golpes.

A queda de 9% na indústria em 2015, em relação a 2014, é o maior tombo desde 2003 e levou o setor à mesma participação que tinha no PIB nos anos do governo Juscelino Kubitschek. Isso fere não só a indústria, mas toda a economia brasileira.

O que dizer de outro duríssimo golpe, que é ter que demitir ou ser demitido em consequência da queda da economia? O ano de 2015 deve fechar com 1,6 milhão de demissões de trabalhadores com carteira assinada. Segundo o IBGE, 9 milhões de pessoas procuraram emprego, sem encontrar, no terceiro trimestre do ano, elevando a taxa de desemprego para 8,9%, a maior desde 2012, quando começou a série histórica. Uma desgraça na vida desses brasileiros e de suas famílias, sem dúvida.

Cito outros exemplos. Existe golpe mais explícito em quem paga seus impostos com muito sacrifício do que a proposta de criar, aumentar e recriar impostos, como a CPMF? É golpista a ação de um governo que, incapaz de fazer o dever de casa e reduzir seus próprios gastos e desperdícios, tenta jogar a conta no colo da sociedade com a cobrança de mais impostos. Mas a sociedade não quer mais “pagar o pato”.

No mesmo dia em que foi admitido o processo de impeachment, o Planalto comemorou a aprovação do projeto que mudou a meta fiscal e autorizou o governo a fechar este ano com um rombo de R$ 120 bilhões no orçamento. Isso é escandaloso e deveria ser motivo de vergonha, de um pedido de desculpas à nação. Nunca de comemoração. Estão festejando o quê? A incompetência para acertar as contas públicas? A irresponsabilidade por gastar demais?

Por fim, um dos maiores golpes que as autoridades podem desferir contra a população: a corrupção, que desvia recursos públicos da educação, da saúde e de outros serviços que deveriam estar sendo prestados à sociedade. Diariamente somos golpeados com revelações estarrecedoras envolvendo agentes públicos, pagamento de propinas e negociatas diversas. Maior empresa do país e um de nossos orgulhos, a Petrobras foi duramente atingida.

O processo de impeachment, que segue seu curso dentro das normas constitucionais, é a chance para que a nação faça seu julgamento. É preciso que todos atuem em nome dos interesses maiores do Brasil.

*Paulo Skaf é presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp).