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Internacionalização exige mudança de visão empresarial

Segundo especialistas convidados para reunião na Fiesp, somente a educação profissional vai preparar as empresas para colocar o 'pé' no exterior

Alex de Souza, Agência Indusnet Fiesp

Investir no mercado interno ou externo não é uma decisão binária, tampouco excludente. Segundo especialistas que participaram de reunião do Conselho Superior da Micro, Pequena e Média Indústria (Compi) da Fiesp na tarde de quinta-feira (21/10), o maior impedimento para que as empresas consigam aumentar o nível de internacionalização dos negócios, incluindo importações e exportações, passa pela mudança de mentalidade e recursos humanos capacitados. O encontro, realizado em formato híbrido, foi conduzido pelo presidente do Compi, Milton Antônio Bogus, que também é vice-presidente da Fiesp, e afirmou que “as pequenas e médias empresas que não inovarem correm o risco de não crescerem”.

Há muito tempo se fala sobre o Custo Brasil e suas implicações. Contudo, segundo o prof. Miguel Ferreira Lima, coordenador do MBA em Comércio Exterior e em Negócios Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), essa não pode ser uma desculpa para deixar de ir para o mercado externo. “O Brasil é o país dos diagnósticos. Há vários estudos que mostram claramente que o Custo Brasil impacta todas as empresas brasileiras, mas principalmente as Pequenas e Médias Empresas (PMEs), porque elas são menos capitalizadas e têm menos condições de contratar profissionais de Comércio Exterior”, disse Lima.

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Fotos: Everton Amaro/Fiesp


Outro fator crucial que dificulta a PME no processo de internacionalização, segundo o especialista, é a ausência de disciplinas específicas na grade dos cursos de Administração. “A internacionalização de negócios é um processo de médio e longo prazo, e o melhor momento para começar é quando o mercado interno está favorável, com a empresa capitalizada. Quando o mercado e sua empresa estiverem bem, esse será o melhor momento para exportar”, afirmou o docente.

Uma das vantagens de internacionalizar os negócios é a diluição de riscos decorrentes do processo. “A aula número um de finanças é de que não podemos botar os ovos todos na mesma cesta. Mas é preciso mudar a mentalidade para vencer, e somente a educação vai mudar esse jogo”, avaliou Lima, citando ainda diversos recursos e ferramentas para ajudar o pequeno empresário, como o site www.investexportbrasil.gov.br.

Do universo de 400 empresas que atuam no mercado brasileiro e são responsáveis por mais de 90% do volume total de nossas exportações, a participação de pequenas e médias empresas brasileiras no mercado internacional, historicamente, é pouco representativa, de acordo com levantamento apresentado pelo vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), Arthur Jorge de Jesus Pimentel.

Boa parte das PMEs já possui operações no mercado internacional. Estudo do Sebrae, mostra que, em 2018, as vendas externas alcançaram a marca de US$ 1,24 bilhão e, em 2019, já representavam mais de 40% do total de exportadores. “O Brasil está incomodando o mundo. Temos imenso potencial. O Brasil é um dos cinco países que acumulam importantes atributos simultâneos: área agrícola superior a 200 milhões de hectares, população urbana superior a 100 milhões de pessoas e PIB que ultrapassa US$ 1 trilhão”, contabilizou Pimentel.

Um exemplo citado por ele é o do agronegócio. “Trata-se de um setor bastante representativo, com previsões de safras bastante otimistas, e esse ambiente é sustentado por uma grande massa de pequenas e médias empresas. Isso é capaz de expandir sua produção, com respeito ao meio ambiente, criar modernas técnicas de cultivo que minimizam os impactos ambientais e maximizar o potencial de construção de uma economia verde e sustentável”, disse o expositor, lembrando que a empresa pequena é capaz de adaptar essas mudanças.

Ele destacou o ecossistema brasileiro de startups, que hoje conta com mais de 13 mil empresas, em 78 comunidades que representam mais de 300 especialidades. “O encontro do Agro e da tecnologia promove novas oportunidades de produção e capilaridade para as pequenas e médias empresas”, afirmou.

Competitividade

Um ponto criticado por Pimentel é o número de horas que as empresas brasileiras precisam despender para cumprir suas obrigações fiscais e acessórias, em relação a outros países. “Quase cinco vezes maior que dos nossos vizinhos argentinos, oito em relação aos EUA e 17 vezes mais do que o tempo necessário na Austrália. Esses enormes entraves levam à perda da competitividade”, lamentou.

Para ele, já passou na hora de o Brasil ter uma estrutura de Estado, não apenas de governo, voltada exclusivamente ao Comércio Exterior. “Não adianta ser um ‘puxadinho’ de outra pasta. O Comércio Exterior precisa ser um pilar da economia brasileira. Exportar gera divisas, que atraem investimento. Esse investimento traz novas tecnologias. Estas aumentam a produtividade, a competitividade e reduzem custos. Isso eleva o nível de vendas e fomenta mais empregos. É um ciclo virtuoso”, vislumbrou Pimentel.

Também participou da reunião do Compi a subsecretária de Facilitação de Comércio e Internacionalização da Secretaria Especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Glenda Lustosa, que apresentou o projeto de inserção internacional de micro, pequenas e médias empresas. “O desafio principal, como foi repetidamente mencionado, é o acesso a serviços e produtos para ter qualificação profissional. Existe um Plano Nacional de Cultura Exportadora, iniciativa do governo federal que busca difundir essa visão e contribuir para ampliar o número de exportadores”, explicou Lustosa.

Essa rede de apoio a empresas é formada por diversas instituições públicas e privadas, que atuam no fomento às exportações brasileiras. Seu principal papel, de acordo com a representante, é organizar ações desenvolvidas por essas instituições e garantir que sua execução seja harmônica e encadeada.