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Ideathon busca soluções inovadoras para impasses relacionados à Primeira Infância

Como captar famílias acolhedoras, criar um sistema transparente de demandas por vagas em creches e estimular as empresas a investirem na Primeira Infância foram os principais desafios enfrentados pelos participantes

Mayara Moraes, Agência Indusnet Fiesp

Após a realização de uma série de cinco workshops que trabalharam a conscientização da população em relação à importância do investimento na Primeira Infância, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e o Pacto pela Primeira Infância realizaram, nesta terça-feira (3/3), na sede da Fiesp, o Ideathon Primeira Infância, uma maratona de oficinas que teve como objetivo promover o desenvolvimento de ideias inovadoras para três grandes impasses próprios dessa causa: transparência na demanda por vagas em creches; captação, capacitação e manutenção de famílias acolhedoras; e engajamento das empresas e da indústria em prol do tema.

A primeira infância, a etapa que começa no pré-natal e se prolonga até o sexto ano de vida, é um período crucial para o crescimento e o desenvolvimento do ser humano. É exatamente durante esses primeiros anos que o cérebro humano se desenvolve em um ritmo sem precedentes, se comparado a qualquer outro momento da vida: nos primeiros 1.000 dias de vida, quase 1.000 células cerebrais se conectam por segundo. Essas conexões são as responsáveis pela saúde mental e física do indivíduo, assim como pelos resultados da aprendizagem, pela aquisição de competências sociais e pela capacidade do ser humano de se adaptar e ser produtivo. Perder essa janela de oportunidade no desenvolvimento das crianças pode ter implicações sérias por toda a vida e para o desenvolvimento sustentável dos países, o que torna a tarefa de investir na primeira infância uma prioridade absoluta para todos.

Antes do início da competição, especialistas no tema foram convidados a contextualizar a importância do debate e a dificuldade dos desafios propostos. Paulo Roberto Fadigas César, juiz titular da Vara da Infância e da Juventude, foi enfático ao lembrar que a falta de controle e transparência na demanda por vagas em creches se materializa em filas não apenas no sistema de educação, mas também no poder judiciário, por meio de centenas de ações que entram todos os dias na vara da infância e da juventude.

Ainda mais grave do que os impasses administrativos e burocráticos podem ser os problemas a longo prazo causados pela ausência de transparência no processo, capaz de comprometer o desenvolvimento e o futuro de milhares de crianças.

“Até os 3 anos são formadas 80% das redes neurais, e até os 5 anos, os 10% restantes”, ressaltou o advogado. “As crianças precisam reagir a estímulos e isso se faz através de interações pessoais que escolas e creches de qualidade proporcionam”, explicou.

Para Carol Velho, consultora da Organização dos Estados Ibero-Americanos, além de desenvolver capacidade técnica para unificar ou padronizar a lista de demanda, é essencial os municípios precisam trabalhar com critérios muito bem definidos. “Qualificar a demanda e qualificar os números é qualificar os nomes das crianças e as suas histórias”, argumentou a especialista.

Em seu discurso, Jane Valente, coordenadora do Plano da Primeira Infância da Prefeitura de Campinas, jogou luz sobre a importância de outro fator imprescindível para o desenvolvimento pleno das crianças: amor. É nesse sentido que as famílias acolhedoras se tornam fundamentais na garantia de uma primeira infância saudável e ideal.

“A família acolhedora proporciona a oportunidade de centenas de crianças receberem afeto”, ressaltou a educadora. “Uma criança que não tem apego e vínculo procura por isso durante o resto de toda a vida”, acrescentou a especialista, ao apresentar um quadro preocupante das crianças em situação de vulnerabilidade no Brasil. No total, 31.769 crianças permanecem em instituições em todo o país, enquanto apenas 1.377 estão abrigadas e protegidas por famílias acolhedoras.

Além da população, setores produtivos também podem contribuir para garantir uma Primeira Infância plena e próspera para todas as crianças. Porém, estudos mostram que o envolvimento dos empresários brasileiros na disseminação da importância do investimento na Primeira Infância ainda está muito aquém do ideal. Levantamento feito pela United Way Brasil, Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e o Great Place to Work revelou que das 150 melhores empresas para se trabalhar 1/4 oferece horário flexível; 49% oferecem licença maternidade estendida; 11% ofertam creche ou berçário; 31% possuem sala de lactação; e pouco mais de 1/3 oferece vinte dias ou mais de licença paternidade.

Segundo Sofia Rebehy, coordenadora de projetos de Primeira Infância da United Way Brasil, essas estatísticas são um reflexo da falta de conhecimento das empresas e das indústrias em relação ao tema. “Poucos investimentos são tão lucrativos quanto aqueles feitos durante o período da primeira infância”, destacou a pesquisadora. Segundo ela, os benefícios são inúmeros, imediatos e de longo prazo. Entre eles, destacam-se a melhora da imagem das empresas mediante os seus stakeholders, o aumento da produtividade dos colaboradores e a diminuição da rotatividade dos funcionários.

“Ao saberem que seus filhos estão sendo bem cuidados, os colaboradores se concentram melhor no trabalho, e ao oferecer horários de trabalho mais flexíveis, as empresas enxergam melhora na retenção de talentos”, explicou Rebehy.

Depois de absorver uma infinidade de dicas, informações e estatísticas, os competidores mergulharam em uma tarde inteira de estudos e, ao final da maratona, apresentaram soluções que surpreenderam os especialistas. Algumas das ideias mais criativas foram a concepção de um selo de excelência a empresas que incentivam funcionários na fase de pré-aposentadoria a se tornarem famílias acolhedoras; a criação de uma plataforma voltada para a conexão de empresas interessadas em investir na Primeira Infância e entidades que já possuem um projeto em andamento; e a geração de um programa de inteligência artificial que estimula colaboradores a trabalhar junto de seus filhos no desenvolvimento de habilidades e competências socioemocionais.

Grácia Fragalá, diretora do Comitê e do Núcleo de Responsabilidade Social da Fiesp e do Ciesp, fez uma avaliação positiva da maratona e rasgou elogios aos projetos apresentados.

“O balanço que a gente faz é que o dia superou as expectativas. Foram propostas muito interessantes, muito inovadoras, desafiadoras, a maioria delas exequível. E a premiação foi as pessoas terem ficado até o final, com todo entusiasmo, engajamento e colaboração.”

Os participantes que estiverem dispostos a tirar seus projetos do papel poderão participar da 24ª edição do Acelera Start Up, que acontece este ano na Fiesp. A maior arena de aceleração de projetos do Brasil pode ser a grande oportunidade de os competidores conquistarem um investidor interessado em apostar sua ideia.

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A primeira infância é um período crucial para o crescimento e o desenvolvimento do ser humano. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp