Economia circular e logística reversa: pontos de atenção para a indústria

Na Semana de Meio Ambiente da Fiesp e do Ciesp, especialistas e autoridades discutiram rumos da PNRS

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

Na Semana de Meio Ambiente da Fiesp e do Ciesp, a logística reversa como instrumento da economia circular foi tema de debates no dia 7 de junho. A partir da promulgação da Lei Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), os municípios têm de encontrar alternativas para acabar com os lixões, mas 90% deles ainda não possuem condições técnicas e financeiras a fim de cumprir tal determinação.

Já a economia circular é nova tendência mundial, que objetiva dar destinação adequada a resíduos ou elaborar produtos visando à destinação adequada. Adotada em vários países da Europa e dos Estados Unidos, está sendo implementada também no Brasil.

Para o vice-presidente da Fiesp e diretor de seu Departamento de Meio Ambiente, Nelson Pereira dos Reis, “o setor industrial está gradualmente se estruturando para enfrentar esse enorme desafio que implica uma mudança estrutural dos sistemas de produção até então vigentes para enfrentar esse novo ciclo da chamada economia circular. Certamente toda mudança dessa natureza requer aprendizado e tempo para correção e adaptação apara alcançar os resultados esperados”, disse, ao abrir os trabalhos.

Humberto Barbato, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), disse que para contribuir com a Logística Reversa do setor foi criada a Green Electron, atendendo à legislação e destinação ambientalmente correta. A iniciativa já conta com a adesão de Apple, Asus, Epson. Embraco, Flextronics, Motorola, Dell, HP, Lenovo, Positivo, Samsung,

De acordo com Barbato, foi dado início ao projeto piloto descart green, que servirá de base para assinatura de Termos de Compromisso estaduais e do Acordo Setorial Federal. Essa iniciativa prevê a instalação de 16 pontos de recebimento em diversos locais, em parceria com associações, entidades, escolas e comércio, no auxílio à capilaridade necessária ao setor.

O debate se completou com a apresentação de Fabrício Soler (Felsberg Advogados), lembrando que a economia circular consiste em ciclo de desenvolvimento positivo contínuo que preserva e aprimora o capital natural, otimiza a produção de recursos e minimiza riscos sistêmicos administrando estoques finitos e fluxos renováveis. Para Soler, é preciso assegurar que todos os signatários também cumpram os acordos setoriais, assegurar o envolvimento de todos os agentes da cadeia – fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, dos consumidores e dos titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos – e consolidar as normas, inclusive com a participação do consumidor, que também terá participação financeira nesse processo. Para ele, é essencial estabelecer incentivos fiscais e, nesse sentido, a questão fiscal precisa ser superada. A responsabilidade compartilhada encontra-se na Lei n. 12.305, a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

Marcelo Souza fez a apresentação de case das Indústrias Fox – Reciclagem e Proteção ao Clima, que dá destinação a aparelhos de refrigeração. Explicou como se trata o gás existente na geladeira e a destinação dada para a lã de vidro (passa a compor peças de dry wall) e ao plástico e, segundo ele, plástico deve ser avaliado como commodity, mas também ser compreendido como produto beneficiado com valor agregado. A Fox já vende, inclusive, crédito de carbono fora do Brasil.

A Plataforma Verde foi apresentada por Chicko Sousa (Greening Sustainable Solutions), que enfatizou que o resíduo deve ser entendido como caso de saúde pública e de logística. E explicou a complexidade de toda a cadeia envolvida, bem como o software que foi desenvolvido como ferramenta auxiliar. Depois de ser realizado um cadastro, define-se com quem se trocam informações e quais são os entes com os quais se irá relacionar. “Trata-se da primeira rede mundial de blockchain [sistema garantidor de segurança nas operações realizadas com criptmoedas] para gerenciamento de dados e com dados factíveis”, afirmou Sousa.

João Carlos Basílio, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC) apresentou o programa Dê a mão para o futuro e seu sistema de indicadores online e frisou que “trata-se de uma fase de repensar a embalagem na economia circular”.

A logística reversa foi exemplificada por Carlos Ohde, diretor da Sinctronics, que conquistou este ano o 1º lugar do Prêmio de Mérito Ambiental na categoria grande porte com o projeto Extração de matéria-prima a partir de produtos pós-consumo: tecnologia e inovação a serviço do meio ambiente. Para ele, é preciso equacionar um ecossistema alicerçado em produção, consumo, legislação. “Faz parte da empresa transformar resíduos em novo produto”, finalizou.

Também integraram o debate Flávio Miranda, da Cetesb, e tratando da gestão de eletroeletrônicos, João Carlos Redondo (Green Eletron/Abinee).


Semana do Meio Ambiente da Fiesp e do Ciesp teve painel sobre a logística reversa como instrumento da economia circular. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp