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Coronavírus eleva o desemprego, mas antecipa forma futura de trabalho

Em reunião, Cort destaca que mudanças previstas para 5 anos aconteceram em 50 dias

Tássia Almeida, Agência Indusnet Fiesp

A pandemia mudou o contexto do trabalho no Brasil e no mundo. O que acreditava-se ser o futuro, foi antecipado e hoje é parte do presente de muitas empresas. Para discutir as relações de trabalho a partir da pandemia da Covid-19, o Conselho Superior de Relações do Trabalho da Fiesp (Cort) se reuniu na última terça-feira (14/7). Sob o comando da nova presidente do Conselho, a desembargadora Maria Cristina Mattioli, o encontro teve início com homenagens emocionantes ao ex-presidente do Cort e ex-ministro do Tribunal Superior do Trabalho, Roberto Della Manna, falecido em abril.

Formado em Economia pela Universidade de São Paulo (USP), Della Manna dedicou à Fiesp e ao Ciesp quase 50 anos de trabalho. Sua seriedade e competência, assim como o trabalho harmonioso desenvolvido junto a líderes sindicais foi lembrado pela desembargadora Maria Aparecida Pellegrina, conselheira do Cort. “Ele era muito habilidoso em negociações”, disse. Representando o presidente da Fiesp e do Ciesp, Paulo Skaf, a diretora executiva jurídica da Fiesp, Luciana Freire, também homenageou o ex-ministro relembrando sua atuação nas entidades e o seu valor como profissional e ser humano. As últimas homenagens foram prestadas pelo vice-presidente do Cort, Nildo Masini.

No primeiro pronunciamento como presidente do Conselho, a desembargadora Maria Cristina Mattioli afirmou que é uma missão impossível substituir Roberto Della Manna, mas seguiria a mesma linha conduzida por ele de defesa dos interesses da indústria e da nação. Formada em Direito pela PUC–SP, a nova presidente do Cort é mestre em Direito pela Universidade de Harvard, doutora em Direito pela PUC–SP, pós-doutora em Direito pela Universidade de Harvard e em Estudos Internacionais pela London School of Economics. É especialista em Globalização e em Direito do Trabalho na América Latina, pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). Atuou como juíza do trabalho do TRT da 15ª Região e como desembargadora.

Na reunião, Mattioli apresentou um panorama do país antes da pandemia. De acordo com ela, as ações de continuidade da aplicação da Reforma Trabalhista de 2017 seguiam, havia uma expectativa de crescimento econômico de 1,7% para 2,4% e de diminuição do desemprego. As reformas estavam em andamento e o mercado financeiro em alta. Com a pandemia, a maior crise de saúde desde 1918 – quando ocorreu a gripe espanhola –, os empregos, salários, produção industrial, comércio e setor de serviços foram atacados. O Ministério da Economia aponta, inclusive, que, no 1º semestre de 2020, os requerimentos de seguro-desemprego somaram 3,95 milhões, aumento de 14,8% frente o mesmo período de 2019.

A desembargadora também citou as medidas que o Brasil tomou para a manutenção do emprego e renda da população, como a decretação do estado de emergência, a MP n. 927 (no Senado) e MP n. 936 (Lei 14.020/20).  Segundo ela, as medidas foram importantes para que o Brasil tivesse impactos negativos menores do que outros países têm experimentado, como o os Estados Unidos que estão com desemprego elevado e desempenho inferior ao Brasil.

Teletrabalho

De acordo com a presidente do Cort, “aperfeiçoar, aprimorar e melhorar” são as palavras que irão acompanhar o cenário do trabalho remoto nos próximos anos. A crise consolidou o home office e o que era tendência virou realidade. Ou seja, o previsto para 5 anos aconteceu em 50 dias. E, como entrave, está o pouco tempo hábil para se preparar para as mudanças que aconteceram de forma acelerada trazendo pautas importantes para a discussão como a saúde dos trabalhadores sem o controle da ergonomia no trabalho remoto.

Por outro lado, o home office derrubou o maior mito e entrave para a modernização nas relações de trabalho, que era a tese de que a produtividade seria afetada com as pessoas trabalhando de casa. De acordo com o IBGE, em 2018, cerca de 3,8 milhões de pessoas trabalhavam nas próprias residências. Com o avanço do coronavírus, esse número quintuplicou. Maria Cristina citou que com esse cenário o controle da jornada começa a ser revisto, já que a nova geração tem uma rotina de trabalho mais focada em resultados,  metas e projetos.

Mattioli pontuou também que, apesar de o teletrabalho ter preservado muitos empregos, o desemprego persistirá após a crise e a desoneração da folha de pagamentos seria uma medida importante para manter vagas de trabalho e acelerar a retomada da economia. Lembrou, também, que os desafios na área trabalhista serão grandes no próximos anos. Reformas estruturais serão necessárias, há a previsão de menos emprego e mais trabalho; menos escritórios e mais domicílio; mais trabalho e menos saúde, além dos debates sobre regular ou não a informalidade. O pós-pandemia chegará junto com o futuro do emprego.

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