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As pessoas são agentes de inovação, afirmam especialistas na Fiesp

Os professores Luiz Carlos Di Serio e Marcos Vasconcellos, da Fundação Getúlio Vargas, participaram da reunião do Conselho Superior de Inovação e Competitividade (Conic) da Fiesp e trataram de temas como competitividade e inovação

Alex de Souza, Agência Indusnet Fiesp

A reunião do Conselho Superior de Inovação e Competitividade (Conic) da Fiesp trouxe para o debate desta terça-feira (20/10) os professores Luiz Carlos Di Serio e Marcos Vasconcellos, da Fundação Getúlio Vargas, autores do livro Estratégia e competitividade empresarial, segundo lugar do Prêmio Jabuti 2009, na categoria Economia, Administração e Negócios. Dirigiu a videoconferência o presidente do Conic, Antonio Carlos Teixeira Álvares.

Como tema, os professores trouxeram a questão: Temos capacitação, mas e a inovação? Para Di Serio, a inovação depende da competitividade, que só pode ser obtida com produtividade. “E isso depende da qualidade das instituições, das políticas e outros fatores que favoreçam a produtividade, o que leva à riqueza. Não há bons salários sem produtividade. Nos últimos 10 anos não avançamos nesse quesito. Em resumo, a competitividade se traduz em dinheiro no bolso”.

Para Di Serio há problemas em todas as áreas e segmentos, do serviço público ao âmbito privado. “Esbarramos no baixo nível educacional, na infraestrutura deficitária, regulamentações, impostos e uma série de restrições. Precisamos avançar com as reformas, combater a ineficiência governamental, a burocracia e a instabilidade política. Com todos esses desafios, como podemos pensar em inovação?”, questionou.

Em sua fala, o professor Marcos Vasconcellos lembrou que o Brasil foi um dos países que mais cresceram no século XX, de 1950 a 1980, a uma taxa de mais de 7% ao ano. Contudo, poucos foram os países em desenvolvimento que conseguiram crescimento sustentável por mais de 25 anos consecutivos. “O Brasil estava na lista, tendo contribuído para isso fatores como a política de substituição de importações, o processo de industrialização, a produtividade crescente, maior oferta de empregos e expansão do mercado interno, o investimento em infraestrutura e o processo de urbanização”.

Di Serio entende que para crescer e inovar um país precisa de instituições fortes. “Se queremos ter inovação precisamos fazer pressão para melhorar as instituições. Ter alinhamento com os poderes e unir as pessoas em torno de objetivos comuns.  A Fiesp é poderosa e tem contribuído com o Brasil. Skaf tem lutado para criar um projeto de país. Essa é a nossa missão e temos de fazer isso”, apontou Di Serio.

Falando sobre o ambiente privado, disse ser essencial que a empresa entenda onde está inserida e identifique os gaps de perda de competitividade. “O mais difícil não é ter ideias, mas implementar. Inovação é resultado, o que depende de eficiência operacional, processos de controle e qualidade de execução. No mundo ocidental somos muito fracos em implementação. Somos bons de ideia, mas pecamos na execução. As empresas precisam perceber as tendências e as mudanças”.

Di Serio afirmou que os pilares da administração ou da contabilidade, por exemplo, não bastam para entender a questão da competitividade, comparando-os com uma floresta. “Cada pilar é uma árvore, mas se não houver visão sistêmica, a empresa morrerá. A copa das árvores da floresta é apenas uma parte do sistema, onde há fatores políticos, econômicos, tecnológicos, aspectos legais. Por que a Tesla está na Califórnia? Ali a regulamentação fomenta a inovação, existe um campo fértil”, explicou.

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Para Di Serio, nem toda inovação precisa ser disruptiva, mas deve ser constante. Foto: Karim Khan/Fiesp

Como mudar – Segundo o professore Di Serio, não existe vantagem competitiva duradoura. Toda vantagem competitiva é temporária e a empresa que tem essa visão saberá avaliar o cenário todo, entenderá como ocorrem as disputas de mercado, quais decisões dever ser tomadas, os caminhos escolhidos e conseguirá prever a reação das pessoas.

A empresa precisa estar conectada, olhando para os não consumidores e não apenas para o público que já detém. “Antes de lançar o PC, a IBM realizou pesquisa perguntando se as pessoas usariam o produto em casa. E a maior parte delas não soube dizer o que era isso. Eles não enxergaram o potencial que havia à frente, ignoraram o mercado de PCs, e sabemos como termina essa história”, alertou Di Serio.

Para ele, nem toda inovação precisa ser disruptiva. “Um exemplo é a Microsoft, que está trabalhando na mesma caixinha há décadas, apenas realizando atualizações. Mas em alguma curva lá adiante, se não houver evolução, poderá desaparecer”. Segundo Di Serio, uma das chaves é encontrar sentido no que se faz, o que aumenta a habilidade para lidar com o sofrimento. “Para lidar com o sofrimento é necessário ter noção clara de que todos estão lutando no mesmo sentido. Para existir corrente elétrica os elétrons devem correr no mesmo sentido. A produtividade ocorre quando a força vai na mesma direção”.

Di Serio afirma que quando se sabe a razão de fazer as coisas tudo fica mais fácil. “Qualquer sofrimento se torna um desafio, e quando a circunstância é boa devemos desfrutá-la; quando não, transformá-la; e se isso não for possível, então, transformamos a nós mesmos”, e exemplificou com Google e Facebook, que surgiram há pouco tempo, mas dormem e acordam inovando. “Nem todas as ações deram certo, obviamente, mas essas empresas sabem onde querem chegar e, para manter vantagem competitiva sustentável, pensam a inovação como objetivo permanente”.

Sobre as tendências, Di Serio disse que toda empresa tem três ondas. A primeira fase começa com a exploração e invenção, com novas ideias, e foi assim com a maior parte das start-ups. Depois, vem a fase de regulamentação, estabelecimento de padrões, ampliação e aperfeiçoamento. Enfim, na terceira fase, a desestruturação, momento em que o negócio precisa se reinventar. “Saímos de um paradigma de escala e volume para a customização. A inovação é vital para a sobrevivência. Mas não basta ter a ideia, na maioria das empresas surgem boas ideias. Mas e a ação e o resultado? Ação é eficiência operacional”.

Em um cenário em que mais de 30% das empresas nem sabe o que é indústria 4.0, como evoluir? Para ele, é necessário ter transformação organizacional. “Precisamos pegar tendências e transformar em inovação. Isso demanda liderança, meio ambiente inovador interno, processos de inovação e pessoas.

Opinião compartilhada pelo professor Vasconcellos. “As empresas criam novos produtos e processos, fazendo crescer a competitividade da economia de um país. Mas a aumentar a competitividade só é possível com empresas inseridas em ambientes favoráveis e com pessoas capazes. As pessoas não são os recursos, mas os agentes da inovação e mudança”, concluiu.