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A construção da economia circular é colaborativa e envolve o esforço da sociedade como um todo

Fiesp, Ciesp e Senai-SP promovem debate sobre as oportunidades e os desafios para implementar a Economia Circular na América Latina, com transmissão pelo Youtube, e integrando Fórum Mundial

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

O encontro de Economia Circular na América Latina integrou a programação do World Circular Economy Forum Online (WCEFonline), organizado pelo Fundo Finlandês de Inovação, Sitra, que reúne mais de 2 mil líderes de negócios e especialistas em economia circular de todo o mundo.

Na gênese da Economia Circular, a criação de processos sustentáveis e circulares na cadeia produtiva e de consumo. Trata-se de uma proposta de mudança em todo o mercado, desde o design dos produtos até a relação das matérias-primas com os consumidores, ou seja, todos devem se engajar em modelos de negócios a fim de evitar a geração de resíduos. Contrapondo-se ao processo produtivo linear, o circular prioriza o uso eficiente de insumos e a criação de valor no que antes era visto como lixo.

Na abertura do evento, Eduardo San Martin, presidente do Conselho Superior de Meio Ambiente (Cosema) da Fiesp, enfatizou a importância da temática para o Brasil, a América Latina e o mundo. Ele pontuou que, no passado, surgiu o conceito de clean production, na área têxtil, e a evolução dessas práticas para a Produção Mais Limpa (P+L) e o debate sobre esse conceito e suas práticas foi incentivado pela indústria paulista. Ele pontou que “é preciso mudar hábitos de todo o mundo, o que envolve a sociedade, o governo, quem produz e quem consome”.

Jyri Arponen, líder sênior do Fundo de Inovação Finlandês Sitra – uma das mais importantes entidades aceleradoras de negócios sustentáveis do mundo -, tratou dos ecossistemas em grandes negócios circulares.  Para ele, o mundo precisa encontrar uma maneira de se recuperar, e promover a resiliência da economia. Os princípios circulares existem há vários séculos, mas têm ganhado destaque devido ao rápido desenvolvimento tecnológico, o que representa vantagem para as empresas e oportunidade de negócios, o que requer a transição para uma nova mentalidade, adaptação de design e produtos, e atenção à mudança climática, inclusive.

Ao tratar da atual pandemia (Covid-19), afirmou que teremos um ano de reconstrução pela frente, mas será preciso avaliar riscos e oportunidades, dar atenção ao desempenho, à tomada de decisões e à gestão de risco. Por fim, pontuou que, em visita ao Senai-SP, ficou impressionado com o interesse, engajamento e determinação para a construção de um futuro mais sustentável por parte da indústria. Em função dessa visita, em novembro de 2019, quando também participou de evento sobre o tema na Fiesp, foi estabelecida parceria que resultou no evento de hoje.

Para manter a economia linear, seriam precisos muitos planetas Terra, observou Marcos Pontes, ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, ao defender a “espaçonave Terra” e seus recursos finitos. O momento requer preservação ambiental, mudança de cultura, foco na qualidade de vida, ênfase no reúso, além da capacitação profissional, pois os jovens terão suas carreiras alteradas, o que incluiu a inovação. “Usar recursos de forma eficiente é um processo que exige a participação de todos”, enfatizou o ministro.

Paulo Skaf, presidente da Fiesp, do Ciesp e do Senai-SP, agradeceu ao fundo finlândes Sitra ao permitir essa parceria de um evento voltado para a América Latina – com a participação de 26 países no Fórum – e ao astronauta e ministro Marcos Pontes, que foi aluno do Senai-SP. “O segredo é quebrar paradigmas todos os dias, se reinventar. A economia circular aumenta a competitividade das empresas e do país. É preciso olhar para o futuro, pois vivemos um momento de rápida transformação”, contextualizou o presidente das entidades da indústria.

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Paulo Skaf, presidente da Fiesp, Ciesp e Senai-SP, reforça a necessidade de quebra de paradigma. Fotos: Karim Kahn/Fiesp

A Plataforma para Acelerar a Economia Circular (Pace) contém muitas informações relevantes, além de relatórios e manual sobre a economia circular, a indicar como parceiros o Terceiro Setor, governos, empresas, consumidores, que devem atuar colaborativamente. David Mac – diretor global da Pace e do WCEF, painel de recursos internacionais – reforçou que pela primeira vez estamos enfrentando um sistema socioecológico de escopo planetário e nossa responsabilidade coletiva para o futuro aumentou muito com a pandemia, mas, alertou, uma mudança sistêmica veio antes do Covid-19, desafiando a nossa existência.

Os fatores limitantes se referiam aos recursos naturais e às questões ambientais, mas deve-se abordar esses desequilíbrios socioeconômicos. “O capital humano por exemplo, está sobrevalorizado e o mesmo acontece com ecossistemas saudáveis frente ao mercado, responsável pela tomada de decisões. Não podemos nos surpreender com esses desequilíbrios. São consequências lógicas enviadas por todos os players de mercado. Deve-se abraçar essa nova perspectiva e demonstrar oportunidade e lidar com o desenvolvimento sustentável, a gestão de recursos, o aquecimento global. Trabalhamos com várias recomendações para mudar o paradigma que irá determinar a competitividade dos países”, recomendou.

Em sua avaliação, a Comissão Europeia demonstrou disposição quanto aos princípios básicos que devem ser acatados por todos e o design [de produtos] será a espinha dorsal do nosso futuro, nas cadeias de valor, com o uso de novos materiais, como substitutos, e modelos de serviço. Assim, haverá uma nova paisagem industrial. Para ele, “a evidência científica lida melhor com esses desafios, mas cada vez que o mundo se torna mais competitivo nenhuma indústria consegue se isolar e fazer isto sozinho” e recomendou mais circularidades com os governos locais, revisão da legislação, colaboração e, inclusive, dimensionar as soluções da economia circular.

Representante da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), pontuou mudanças na forma de financiamento, foco na redução da pobreza e o empoderamento das mulheres, com a oferta de ferramentas financeiras sustentáveis, prioriza as populações da África. Na Ásia, há ação referente à presença de plásticos no oceano, projeto que virá para a América Latina. “É preciso contar com parceiro. Querer fazer sozinho é receita para o desastre”, afirmou Boni. Ela tratou de valores globais, que incluem agricultura, nutrição, meio ambiente mais limpo, uso racional da energia e do solo, minimização da geração de resíduos e desperdício de alimentos. Por si só, são temas globais tão amplos que podem modificar toda uma cadeia de valor.

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Participantes internacionais apresentam cases de sucesso e debatem o estágio do conceito Economia Circular no mundo

Cases de sucesso

Outros participantes apresentaram seus cases, como, por exemplo a Niaga (Again, se lido ao contrário), que reaproveita o polímero de tapetes, o segundo item que mais gera resíduo [o primeiro, fraldas]. Mas o essencial é que os tapetes sejam fabricados com apenas com um polímero, uma vez que conta com várias camadas. É mais fácil reciclar um polímero do que vários, indicando o impacto do design e fabricação de um produto. O Niaga é um projeto desenvolvido nesse sentido, garantindo sucesso na cadeia de valor. Outros integrantes do painel apresentaram cases de reciclagem do alumínio, com soluções inovadoras, reaproveitamento de outros materiais e, inclusive, a recuperação de materiais de terras raras. Essas ações são desafiadoras, contam com o apoio da academia, e representam inovação para as pessoas e o planeta.

Livro sobre Design e Economia Circular

No evento, foi lançado o livro Design e Economia Circular (Editora Senai-SP), um olhar voltado ao design e aos novos modelos de negócios circulares, com a organização de artigos de renomados especialistas de diversas partes do mundo. A apresentação coube ao diretor regional do Senai-SP, Ricardo Terra. 

Terra também lembrou que o Senai-SP oferece curso gratuito sobre economia circular, em EAD, e mais de 64 mil pessoas no Brasil e no exterior já o realizaram, oferecido também em espanhol. O curso aborda também as transformações decorrentes da Economia Circular e a colaboração da indústria 4.0. “O design é ferramenta importante, uma mudança de mindset que irá acelerar o processo”, observou Terra.

Além do mais, “no último trimestre deste ano, será lançado curso MBA sobre economia circular, e também são oferecidos serviços às empresas, educacionais e tecnológicos, que podem ser acessados com o app Senai empresas, aplicativo gratuito, canal de comunicação com o Senai-SP.

América Latina presente

O evento também contou com a presença de especialistas do Brasil, Chile, Argentina, Colômbia e Uruguai, que debateram as medidas adotadas para a implantação da economia circular como modelo econômico.

Cristiano Prado, coordenador da Área de Pessoas e Prosperidade do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud-ONU), pontuou que a Economia Circular tem grande papel: é mais inclusivo, mais resiliente e mais sustentável, ou seja, tem um grande papel. O Pnud publica um guia de economia circular e desenvolveu parcerias com usinas de cana de açúcar na produção de energia, além de apresentar propostas de políticas públicas para o Ministério da Economia.

No debate Construindo uma Economia Circular na América Latina, Daniel Chang, coordenador de Programas e Projetos em Bioeconomia do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações, apresentou aos participantes a estratégia nacional 2016-2022 para a ciência e tecnologia nacional, o que inclui cadeias de Economia Circular, tais como o açaí e o pirarucu (Amazônia) e o Licuri (caatinga), agregando valor às comunidades locais. Outro case apresentado diz respeito ao reaproveitamento de computadores em cinco regiões brasileiras, com o treinamento de jovens, que resultou na recuperação de 116 toneladas de lixo eletrônico, em 2019. Outras iniciativas englobam resíduos eletroeletrônicos, com reaproveitamento de placas eletrônicas, lítio e cobalto e tratou, também, dos investimentos públicos, inclusive para startups, e os roadmaps realizados em todo o país, pelo Ministério, que embarcaram o conceito Economia Circular.  ­­

Na agenda ministerial, figuram tópicos como água, alimentos, energia, clima saúde, biomas e bioeconomia e, ainda economia e educação digital, tecnologias convergentes e habilitadoras, setor aeroespacial e defesa, nuclear, ciências e tecnologias sociais e minerais estratégicos.

Luis Martinez Cerna, da Universidade Central do Chile, pontuou que a América Latina tem muita riqueza: concentra 1/3 das águas doces, grande biodiversidade e reservas minerais. Por isso, é preciso incentivar a criação de novos negócios circulares e incorporá-los à sociedade, com os devidos incentivos tributários, além do fortalecimento da pesquisa para avançar nesse novo modelo. “Os governos são fundamentais para promover essa dinâmica”, afirmou.

Júlio Sosa, coordenador-executivo da Câmara das Indústrias do Uruguai, enfatizou que a essa altura a Economia Circular é um instrumento para melhoria da competitividade das empresas. “A mudança na matriz energética foi significativa, essencial, com a geração de energia 100% a partir de fontes renováveis. Temos lei de sacolas plásticas que, do meu ponto de vista, faz o consumidor ter noção do impacto. Ainda há muito trabalho” avaliou.

Também integraram os debates, Silvia Vargas, líder do Grupo de Economia Circular do Ministério do Meio Ambiente da Colômbia, Elizabeth Peralta - ex-chefe do Departamento de Engenharia e Gestão Ambiental da Empresa Pública Municipal de serviços de água, esgoto e pluvial da cidade de Mar del Plata, Argentina.

Na conclusão, destaque para a frase “Economia circular é organizar a economia e os negócios de forma a gerenciar a economia ao mesmo tempo que diminuímos o desperdício de matéria-prima”, de Jyri Katainen, presidente do Fundo Finlandês de Inovação Sitra.