Fonte alternativa de abastecimento, reúso é avaliado em função da pressão hídrica

Especialistas avaliam diversos aspectos do reúso: âmbito industrial, socioeconômico e ambiental, em encontro na Fiesp

Mayara Moraes e Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

A segurança hídrica, tema que sempre pautou debates e políticas públicas, volta à tona em temporada de chuvas escassas e se associa cada vez mais à necessidade do reúso de águas e efluentes, fontes de abastecimento especialmente para atividades que não precisam se utilizar de água potável, o que incluiu segmentos públicos e privados.

Uma ameaça hídrica ronda o estado de São Paulo, enfatizou Eduardo San Martin, presidente do Conselho Superior de Meio Ambiente (Cosema) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que trouxe este ponto para ser avaliado em encontro realizado nesta terça-feira (28/9), na sede da entidade. Em 2014, o estado viveu uma crise hídrica e muitas lições foram aprendidas e estão sendo aplicadas agora.

Nelson Pereira dos Reis, diretor titular do Departamento de Desenvolvimento Sustentável (DDS) da Fiesp, frisou a necessidade de destacar o tema que afeta toda a sociedade brasileira, a fim de sensibilizar e promover ações. Ao longo dos anos, a Fiesp e o Ciesp sempre realizaram capacitação para o setor industrial voltada ao uso racional da água. Hoje mais de 85% das empresas do setor industrial contam com boas práticas de conservação e reúso em suas plantas. Se essa porcentagem pode ser considerada promissora, é desejável extrapolá-la para as demais áreas: agricultura, comércio, serviços e prédios públicos.

“O Prêmio de Conservação e Reúso de Água, agora em sua 15ª edição, demonstra claramente o que as empresas têm feito, de modo sistemático, para reduzir o consumo ao adotar alternativas a fim de diminuir a dependência dos mananciais e das redes públicas”, explicou Reis.

Alexandre Luiz Almeida Villela, coordenador regional de meio ambiente da Fiesp e também coordenador da Câmara Técnica de Monitoramento Hidrológico do comitê PCJ (rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí), trouxe informações sob o ponto de vista do usuário e o protagonismo que se pode ter ao se deixar de lado a posição de ‘espectador’ da crise. Na avaliação dele, a criticidade é mais intensa na Bacia do Paraná, onde se encontram 85,4% do estado de SP, enquanto as demais somam 14,6%, mais voltadas às áreas litorâneas. Esse cenário se acirra pelo fato de ser uma área de grande atividade econômica.

“O índice dos reservatórios está com os piores índices da série histórica”, avisou Villela, ao se olhar a situação das bacias do Tietê e do Paranapanema. “Mas é diferente da registrada em 2014, pois impactou primeiramente a navegação, o lazer, o turismo e a aquicultura”, avaliou.

Entre as ações em andamento, elencou a redução das restrições de vazão nas usinas de Jupiá e Porto Primavera, além de se reduzir o calado e paralisar a Hidrovia Tietê-Paraná devido à baixa reservação e chuvas escassas na última década, agravada, em 2020 e 2021, com somas abaixo do esperado, 40 a 60% menos em algumas áreas.

Outro aspecto que deve ser levado em conta, de acordo com Villela, é o ambiente decisório fragmentado, pois há rios sob domínio estadual e outros da União. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) é a responsável por declarar a criticidade hídrica, mas não há critérios estabelecidos pelo Conselho Nacional para que ela faça essa declaração, explicou. No cenário atual, as indústrias elaboram planos de contingência, um legado que ficou da crise vivida em 2014.

O Alto Tietê, a Grande SP, mais a região PCJ compartilham o sistema Cantareira, que configura um dos maiores sistemas de transposição de águas do mundo, somando números superlativos: aproximadamente 1,5 milhão de empregos no setor industrial, 55% do PIB industrial no estado, 16 mil indústrias no PCJ e 40 mil indústrias no Alto Tietê. Mais de 65,5% das indústrias de médio e grande porte têm prática de reúso interno. É bom reforçar que 28% da água captada no estado é para uso industrial, mas, na PCJ, de 2002 a 2019, a indústria reduziu em 47% a demanda hídrica industrial.  O setor sucroalcooleiro, por outro lado, conseguiu reduzir de 17 m3/ton. processada, em 1970, para 0,82 m3 ton. processada em 2020, um grande avanço. Já a indústria química obteve redução de 47% no consumo por ton./produzida de 2001 a 2013, índice conquistado em função do reúso.

Qual a previsão para 2022?

Com o efeito do La Niña (resfriamento do Pacífico de outubro a dezembro de 2021), espera-se redução de 30 a 40% das chuvas. A previsão, de setembro a novembro, nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, é de chuvas abaixo da média histórica, em torno de 35 a 60%. Essa combinação deve levar ao adiamento do início do período chuvoso e/ou redução dos índices pluviométricos.

Atualmente, 20 cidades se encontram em sistema de racionamento, o que envolve 2 milhões de habitantes. Porém, as pequenas indústrias conectadas à rede pública também sofrem esse impacto e há municípios que não contam com reservatórios ou se abastecem de corpos de água não regularizados. Entre os efeitos esperados, o aumento dos custos com energia elétrica e insumos para o tratamento e impactos devido a interrupções/restrições na hidrovia Tietê/Paraná.

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Anícia Pio, gerente do DDS, reforçou o fato de a Fiesp e o Ciesp terem assento em todos os Comitês de Bacia do estado, em torno de 120 representantes da indústria, e também no Conselho Nacional. Para a especialista, que destacou os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), o item 6 merece atenção redobrada: água potável e saneamento para todos. Com metas a serem cumpridas até 2030, ou seja, ‘amanhã’, como disse a expositora, é preciso tratar efluentes e promover o reúso e a reciclagem, abandonar o pensamento de Economia Linear e migrar urgentemente para a Economia Circular. Pio ainda frisou o desafio que traz a escassez de água doce diante do crescimento populacional e da rápida urbanização, o que implica em adaptação e resiliência. Nesse sentido, o esgoto é fonte importante de abastecimento.

Há estudos e alertas feitas pelo Banco Mundial e pelo Fórum Econômico Mundial que demostram que, em meados deste século, a Economia Circular terá potencial para reduzir o consumo de água das fontes naturais em 53% e quase 50% das emissões relacionadas à eletricidade do setor global de águas residuais também podem ser reduzidas, um índice que chama a atenção às vésperas da COP26, a Conferência do Clima, que será realizada este ano em Glaslow, na Escócia, entre 31 de outubro e 12 de novembro de 2021, sob a presidência do Reino Unido.

Para acessar a apresentação de Anícia Pio, gerente do DDS da Fiesp, clique aqui.

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Nelson Pereira dos Reis lembrou da importância do Prêmio de Conservação e Reúso de Água, em sua 15ª edição, um estímulo às empresas que inovam, de modo sistemático, para reduzir o consumo e diminuir a dependência dos mananciais e das redes públicas. Fotos: Ayrton Vignola/Fiesp

Tendências e Desafios do Reúso de Água no Brasil

José Carlos Mierzwa, chefe do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Centro Internacional de Referência em Reúso de Água (Cirra) lembrou das iniciativas impulsionadas pelo Brasil nas últimas décadas, como o Programa de Reúso Industrial para a Coats Correntes de 1998, o Programa de Reúso Industrial para a Santher de 2008, e o projeto Aquapolo de 2012. Mais recentemente, o Projeto Cesan/ES 2021 chama a atenção não só pela sua capacidade de produzir até 200 litros por segundo, mas também pela preocupação em reduzir a pressão sobre os recursos hídricos regionais.

“A expansão de iniciativas como essas mostram a necessidade de a indústria ter maior protagonismo na questão da oferta de equipamentos para viabilizar esses programas de reúso”, disse Mierzwa. “Além da questão da tecnologia, que é fundamental, é necessária atuação integrada da indústria e dos centros de pesquisa para que possamos enfrentar um desafio tão relevante como um programa de escassez”, acrescentou.

Acesse a apresentação de José Carlos Mierzwa, da USP

O agravamento da escassez hídrica em regiões urbanas é, sem dúvida, uma tendência futura, bem como a necessidade da ampliação da coleta e do tratamento de esgotos e a implantação de programas de reúso potável.

A Estação Produtora de Água de Reúso Epar Boa Vista, prevista para entrar em pleno funcionamento em outubro de 2021, é um dos raros empreendimentos do gênero em progresso no país. Para Renato Rosseto, gerente de Operações da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento de Campinas (Sanasa), a dificuldade em alavancar projetos de reúso no Brasil se deve a uma série de fatores, como a ausência de governança, de definição de terminologias amplas e parâmetros de qualidade coerentes, que levem em consideração as realidades locais.

“Definir prioridades e critérios para a emissão de novas outorgas de captação que favoreçam a escolha e a busca por reúso, alinhar as expectativas com custos da água de reúso e criar incentivos econômicos para a produção e utilização desse tipo de sistema também são fundamentais”, alertou Rosseto.

A expectativa para o futuro é positiva, entretanto. Carlos Roberto de Oliveira, diretor Administrativo e Financeiro da Agência Reguladora dos Serviços de Saneamento das Bacias do Rio Piracicaba, Capivari e Jundiaí (ARES/PCJ) argumentou que a Lei n. 14.026, que dispõe sobre a criação da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), também trata do papel da agência reguladora como grande incentivadora da água de reúso. “Com o novo papel introduzido pela Lei, o reúso ganha estatuto diferenciado na nossa legislação e traz uma perspectiva direta da atuação do órgão regulador”, ressaltou.

Conheça a apresentação de Carlos Roberto de Oliveira (ARES/PCJ)

A pauta também entrou na agenda de saneamento do governo federal. Segundo Paulo Rogério dos Santos e Silva, coordenador-geral de Gestão Integrada na Secretaria Nacional de Saneamento do Ministério do Desenvolvimento Regional, um grupo de trabalho foi criado este ano para discutir o tema e estruturar um Projeto de Lei que contribua com a temática.

“Este é um tema que precisa ser tratado com responsabilidade e cuidado, especialmente em momento de crise hídrica”, advertiu Silva. “Somos tentados a encontrar soluções rápidas e mágicas, mas precisamos ter cuidado para que as sugestões apresentadas reflitam a necessidade do setor e dos usuários, e sejam acompanhadas de aspectos legais que tragam segurança jurídica para investidores, indústria e produtores de água”, sublinhou.

Neste link, a apresentação de Paulo Rogério dos Santos e Silva, do Ministério

Clique aqui para assistir a íntegra do Cosema e do Departamento de Desenvolvimento Sustentável (DDS). 

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